Fonte: OpenWeather

    PLANO REAL 25 ANOS


    Real: a moeda que mudou a história do Brasil

    Moeda entrou em circulação no dia 1° de julho de 1994 pondo fim a um período de inflação desenfreada. 25 anos depois, as preocupações são outras.

    Antes do Plano Real, o Brasil teve outros seis planos de estabilização econômica | Foto: Reprodução

    Manaus - Imagine ir ao Centro de Manaus para verificar o preço de uma câmera fotográfica na manhã de um dia normal, e no mesmo dia, à tarde, o preço dessa câmera mudar drasticamente. Absurdo, não? Pois esse era o cenário vivido pelos brasileiros até 1994. A partir de 1° de julho de 1994, uma nova moeda, o real, entra mais forte e mais robusta no mercado brasileiro, e permanece até os dias de hoje.

    Até 1994, a economia brasileira estava vivendo um período de caos. De 1965 a até o fim de junho de 1994, o Brasil acumulou uma inflação de 16 dígitos, e o maior reflexo disso era visto nos supermercados e centros comerciais. "Nós íamos ao Centro para ver o preço de uma filmadora e o preço era um. De tarde o preço já era outro, muito maior do que o da manhã. Tudo aumentava muito rápido, os salários eram pagos em milhões e a moeda era extremamente desvalorizada", diz a autônoma Vera Lúcia Rodrigues, de 61 anos. 

    As coisas só mudariam em 1994, quando o então presidente Itamar Franco emitiu a Medida Provisória 434. A norma instituía a Unidade Real de Valor (URV), uma espécie de "moeda de câmbio" que serviria para equiparar o preço do cruzeiro real (CR$) até a nova moeda entrar, de fato, em circulação. No dia em que começou a circular, uma URV equivalia a CR$ 647,50, mas no dia 30 de junho de 1994, a URV valia CR$ 2.750,00. Em 1° de julho de 1994, a URV virou o real (R$).

    Fiscais da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) visitavam diariamente os supermercados para manterem os preços congelados, durante o período do Plano Cruzado
    Fiscais da Superintendência Nacional de Abastecimento (Sunab) visitavam diariamente os supermercados para manterem os preços congelados, durante o período do Plano Cruzado | Foto: Reprodução/ O Globo

    Cenário pré-1994

    Antes do Plano Real, o Brasil teve outros seis planos de estabilização econômica - todos fracassados: o Cruzado 1, o Cruzado 2, o Bresser, o Verão, o Collor 1 e o Collor 2. De acordo com o professor Roderick Castello Branco, do curso de Economia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), o Plano Real foi o primeiro plano de estabilização que conseguiu romper com a marcha ascendente dos preços. Segundo ele, nada impacta mais a qualidade de vida do trabalhador das classes média e baixa do que a inflação.

    "Nos planos antecessores, a inflação sempre voltava mais forte e ameaçadora. Finalmente, o país conseguiu romper o ciclo de crescimento dos preços decorrentes da inflação inercial. A forte espiral inflacionária foi interrompida definitivamente e esse é seu maior mérito", aponta o docente.

    O sucesso do Plano Real se deveu a cinco pilares estruturais: a desindexação da economia, privatizações, equilíbrio fiscal, abertura econômica, contingenciamento e políticas monetárias restritivas. Integrante da equipe econômica do Plano, o economista Gustavo Franco fala com propriedade do que viveu a partir de 1993, quando foi nomeado para o cargo de secretário adjunto de Política Econômica do Ministério da Fazenda. Segundo ele, foi feito o melhor que se podia fazer.

    Gustavo Franco fez parte da equipe econômica que criou o Plano Real
    Gustavo Franco fez parte da equipe econômica que criou o Plano Real | Foto: Divulgação

    "Fizemos o melhor que podíamos, em condições difíceis e sob incerteza, e deu certo. Quem diz que erramos precisa explicar como exatamente faria diferente e explicar muito direitinho como isso afetaria o resultado", diz Franco, que também é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ).

    Moeda forte

    Quando o real começou a circular, havia um temor de que acontecesse a mesma coisa que aconteceu com o cruzeiro, o cruzado e as outras moedas que o antecederam. No entanto, a nova moeda já começou a circular equiparada ao dólar, numa proporção de 1 para 1. Para se ter noção da valorização, em 1997, o salário de um músico da orquestra Amazonas Filarmônica, por exemplo, era de US$ 4.000,00, o equivalente a R$ 4.000,00.

    Comparando 1994 com 2019, Gustavo Franco afirma que o real é a moeda "mais bem comportada de todas que o Brasil já teve". Segundo ele, não há risco de a moeda quebrar da mesma forma que aconteceu com as anteriores. Além disso, uma inflação parecida com a de 1994 também está descartada, pois as instituições e defesas construídas ao longo dos anos impedem que isso aconteça.

    Fernando Henrique Cardoso, junto com Pedro Malan (sentado), apresentam as novas cédulas do real
    Fernando Henrique Cardoso, junto com Pedro Malan (sentado), apresentam as novas cédulas do real | Foto: Gustavo Miranda/Agência O Globo

    "Refiro-me à nova estrutura decisória, como o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Comitê de Política Monetária (Copom), às novas regras para bancos, sobretudo públicos, além da Lei de Responsabilidade Fiscal e outros mecanismos fiscais de controles, e por fim pelas privatizações, que reduziram o tamanho do Estado", diz Franco, que também é Ph.D em Economia pela Universidade de Harvard e sócio fundador da Rio Bravo Investimentos. 

    Roderick Castello Branco faz coro a Gustavo Franco. Entretanto, ele alega que é preciso conceder uma independência real ao Banco Central do Brasil, para uma defesa mais eficaz da moeda. "As reservas brasileiras estão próximas de US$ 350 bilhões e nós temos um Banco Central que é autônomo e tem liberdade para atuar na política monetária. Além disso, o ambiente internacional e favorável e temos o sistema de metas de inflação", comenta.

    O futuro do real

    Em junho de 2019, durante uma visita de Estado à Argentina, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) e o ministro da Economia, Paulo Guedes, ventilaram a criação do peso-real, uma moeda que seria compartilhada pelos dois países. A ideia não é nova: na verdade, ela já vem desde o governo de José Sarney, e foi defendida por Paulo Guedes em um artigo de 2010 na revista IstoÉ.

    Na visão de Gustavo Franco, o peso-real não é uma boa ideia. "Ela faz sentido, e talvez só no plano da retórica, para os argentinos. A União Europeia levou anos para se preparar, e mesmo assim está enfrentando sua cota de problemas", aponta o economista. 

    A história da implantação do Plano Real virou filme: "Real - O Plano Por Trás da História", com Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, Guilherme Weber como Pérsio Arida, e Emílio Orciollo Netto como Gustavo Franco
    A história da implantação do Plano Real virou filme: "Real - O Plano Por Trás da História", com Tato Gabus Mendes como Pedro Malan, Guilherme Weber como Pérsio Arida, e Emílio Orciollo Netto como Gustavo Franco | Foto: Divulgação

    Já Roderick Castello Branco considera que a implantação de uma moeda como o peso-real é pouco factível, e caso seja possível, bastante lenta. Ele aponta que isso é um projeto de longo-prazo, e lembra que as ideias de criação do euro foram amadurecidas pelo prazo de 40 anos. 

    "Cada país do bloco possui políticas monetária e fiscal distintas, que deveriam ser unificadas. A própria forma de calcular os impostos no Brasil é distinta da forma utilizada na Argentina, por exemplo. Superadas essas questões estruturais e criado Banco Central do Bloco, a moeda única traria vantagens na integração regional e facilidade nos negócios e favoreceria o crescimento da economia do Bloco", argumenta. 

    O futuro do Brasil

    O docente da UEA aponta, no entanto, um problema maior do que a hiperinflação: a estagnação no crescimento do país, que gera desemprego, reduz as oportunidades no mercado e achata salários "dos que têm sorte de estarem empregados".

    "Creio que estamos em um ciclo vicioso em que as pessoas reduziram o consumo por falta de renda, impactando no comércio, que vende menos, que demanda menos da indústria, que por produzir menos, emprega menos. Rompemos a inflação, mas o desafio é sair da armadilha do baixo crescimento. Isso exigirá a abertura da economia brasileira e outras reformas que permitam o aumento da produtividade", salienta docente.

    Linha do tempo

    Fevereiro de 1986: José Sarney implanta o Plano Cruzado, marcado pela política de congelamento de preços. Inflação alcança 79,66%.

    Novembro de 1986: Sarney implanta o Plano Cruzado II, com medidas de liberação parcial de preços de produtos e serviços, alteração do cálculo da inflação, que passa a ter como base os gastos das famílias com renda de até cinco salários mínimos, além de aumento de impostos sobre bebidas e cigarros e aumento da carga fiscal. 

    Junho de 1987: Implantação do Plano Bresser, que congela preços e salários por 90 dias. Por determinação do governo, reajustes salariais deveriam ocorrer toda vez que a inflação acumulada chegasse a 20%. 

    Janeiro de 1989: Implantação do Plano Verão. Com o plano, é criada uma nova moeda: o cruzado novo, além do aumento da taxa de juros, aumento dos preços administrados pelo governo e o congelamento de preços por prazo indeterminado. Brasil alcança inflação de 1972,92%. 

    Março de 1990: Implantação do Plano Collor. Com a medida, é instituído o cruzeiro (Cr$), na paridade de 1 para 1 com o cruzado novo. O plano também institui o Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) e a eliminação dos incentivos fiscais, principalmente os da Zona Franca de Manaus. Inflação anual chega a 1.620,97%.

    Janeiro de 1991: Entra o Plano Collor II, que inclui novos congelamentos de preços e substituição das taxas de overnight. Brasil fecha o ano com 472,70% de inflação. 

    Dezembro de 1992: Itamar Franco assume a presidência da República em 29 de dezembro, após o impeachment de Fernando Collor. Inflação chega a 1.119,10%

    Maio de 1993: Itamar Franco nomeia Fernando Henrique Cardoso para ministro da Fazenda. No mesmo ano, o presidente nomeia os economistas Pedro Malan, André Lara Resende, Pérsio Arida, Gustavo Franco, Edmar Bacha e Winston Fritsch para cargos no ministério, coordenados pelo secretário-executivo da pasta, Clóvis Carvalho. Os seis são os autores do Plano Real. 

    Agosto de 1993: Moeda muda de cruzeiro para cruzeiro real. Brasil fecha o ano com 2,477,15% de inflação. 

    1° de março de 1994: Começa a circular a URV. No primeiro dia de circulação, vale CR$ 647,50. O mês de março fecha com 42,75% de inflação. 

    1° de julho de 1994: O real começa a circular no Brasil. No dia anterior, 30 de junho de 1994, uma URV valia CR$ 2.750,00. O Brasil fecha 1994 com 916,46%. A inflação chega ao seu menor número em 1998: 1,65%, comprovando o sucesso e a valorização da nova moeda. 

    Leia mais

    Receba as principais notícias do Portal Em Tempo direto no Whatsapp. Clique aqui!

    Gradiente anuncia retorno ao AM e deve gerar mais de 300 empregos

    Comissão da Câmara aprova texto-base da reforma da Previdência

    Comentários