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    Indústria


    Declarações de Bolsonaro contra a Argentina interferem na ZFM

    Bolsonaro lamenta vitória de Fernandéz e diz que não vai cumprimentar o presidente eleito da Argentina

    Novo presidente argentino traz na chapa a ex-presidente Cristina Kirchner | Foto: Agustin Marcarian/Reuters

    Manaus - As exportações para a Argentina de motocicletas e receptores de TV, produzidos na Zona Franca de Manaus (ZFM), podem ser gravemente afetadas a partir de 2020. Um dos principais parceiros comerciais do Brasil e do Polo Industrial de Manaus (PIM), o país vizinho recebeu duras críticas do presidente Jair Bolsonaro, após eleger em primeiro turno Alberto Fernández. Para analistas, as declarações do chefe do governo brasileiro podem interferir nas relações econômicas.

    No primeiro trimestre de 2018, o valor das vendas para a Argentina foi de US$ 33,8 milhões. Com a crise econômica que o país vizinho enfrenta, houve uma queda de 64% nesse valor em 2019 - um número preocupante para as exportações do Amazonas.

    A vitória do peronista no primeiro turno com mais de 48% dos votos foi confirmada ontem (28). Fernández substituirá Mauricio Macri, que está no poder desde 2015. Ao saber do resultado das eleições, o presidente Jair Bolsonaro declarou que a Argentina “escolheu mal” o novo representante. “Não pretendo parabenizá-lo”, disse à imprensa durante sua viagem pelo Oriente Médio. Bolsonaro acrescentou que não vai se indispor nem fechar as portas para Fernández, mas que está preocupado com o posicionamento do novo presidente argentino.

    “Agora, estamos preocupados e receosos, tendo em vista até o gesto que ele fez de Lula Livre”, disse Bolsonaro. O presidente brasileiro considera que Fernández “está afrontando o Brasil de graça”. Fernández já expressou apoio ao ex-presidente Lula, e até o visitou na prisão em Curitiba em julho deste ano.

    As declarações de Bolsonaro provocaram reações mistas entre representantes da indústria e economia do Amazonas. Para o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo, a fala de Bolsonaro não deve ser levada “ao pé da letra”.

    “A Argentina é um grande parceiro do Brasil e com uma mudança política, ninguém sabe como vai ficar. Esperamos, é claro, que as boas relações comerciais continuem.  Não acredito que as declarações do presidente da República devam ser levadas ao pé da letra a ponto de vir nos penalizar [economicamente]”, disse o vice-presidente. 

    O vice-presidente da Fieam afirma que manter um bom entendimento com país vizinho é essencial para o Brasil, que está em busca de investimentos. “Nós que somos investidores estamos tentando atrair capital estrangeiro, e esperamos que o resultado das eleições não venha a prejudicar as relações comerciais”, projetou.

    O Brasil tem a tradição de exportar para a Argentina itens industrializados e manufaturados, com destaque para o setor automotivo, metalúrgico e produtos petroquímicos. Da ZFM, o país argentino compra principalmente motocicletas e receptores de TV, entre outros produtos, de acordo com o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Wilson Périco. “A Argentina é um destino importante para alguns produtos da ZFM, inclusive o de motocicletas, mas agora os volumes [de exportação] variam. Depende do mercado e consumo interno deles, que não estava lá essas coisas”, disse Périco.

    “No meu entendimento, foi um retrocesso [a eleição de Fernández] dentro do que já foi visto na gestão kirchinista daquele país”, declarou o representante da Cieam. O novo presidente argentino é da chapa peronista e traz como vice a ex-presidente Cristina Kirchner. 

    Perico diz que é necessário aguardar as novas diretrizes econômicas argentinas para saber o impacto nas exportações da ZFM. “Não adianta fazer especulação agora, temos que esperar para ver o que terá de novo na política e o reflexo em nós para as indústrias poderem se posicionar”, afirmou. Périco relembra que, durante o governo Macri, houve limites e cotas para a importação de produtos da ZFM, além de quebras de acordo com o Mercosul.  “Não compravam do Brasil, nem produziam lá, mas compravam da China”, recordou.

    ‘É preciso ter educação’

    O economista Wallace Pinheiro afirma que as declarações negativas de Bolsonaro sobre a eleição de Fernández são lamentáveis para as relações internacionais do Brasil. “Infelizmente nosso chefe de governo não tem respeito. Antes de mais nada, ele tem que ter mais atenção às possibilidades que o Brasil tem com outros países, mesmo que não sejam do perfil ideológico dele. Ali, ele é representante do país. Precisamos de equilíbrio porque as relações entre países devem ser mais que ideológicas. É preciso ter educação”, disse o economista. 

    Wallace explica que a tendência do novo governo argentino é ser mais intervencionista na economia. “O governo Macri foi neoliberal, cortou gastos, privatizou e adotou a política de Estado mínimo possível na economia. Com a vinda do novo presidente, provavelmente, esse foco deve mudar, já que a vice [Kirchner] era intervencionista. O objetivo será voltar a ter crescimento econômico, o que não foi conseguido pelo Macri”, explica o especialista.

    O economista esclarece sobre as razões que as medidas de Macri não foram tão exitosas para a recuperação da economia argentina. “Infelizmente, o mercado em países pobres como os da América do Sul não consegue crescer e ter um retorno adequado sem a intervenção do Estado, porque é insuficiente e tem suas limitações. Não é o bastante para preservar produção e empregos, nem se preocupa em resolver problemas de miséria e pobreza”, afirma.

    Para Wallace, a reversão da crise da Argentina só trará consequências positivas para o Brasil e a Zona Franca, que voltará a exportar em maior volume para o país vizinho. “Tradicionalmente fazemos esse papel de exportar para eles; isso nos favorece. Com eles encontrando as melhores políticas para restabelecer seu crescimento, nós fazemos nossa parte de aprimorar nossa produção e oferecer produtos diversificados. Uma Argentina restabelecida, confiante na economia, é boa para nós”, acredita o economista. 

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