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    Salário mínimo


    Reajuste no salário mínimo fica abaixo da inflação no Amazonas

    O INPC acumulou alta de 5,45% na inflação, em 2020, enquanto o reajuste do salário mínimo de 2021 - definido todo início de ano - permanece em 5,26%

     

    O novo reajuste deve estar disponível aos trabalhadores amazonenses a partir de 1º de fevereiro
    O novo reajuste deve estar disponível aos trabalhadores amazonenses a partir de 1º de fevereiro | Foto: Tânia Rêgo

     Manaus - Com a inflação dos alimentos básicos em 2020, o trabalhador teve dificuldade em equilibrar as contas em meio à pandemia. Para o novo ano, a situação pode continuar a mesma, uma vez que o Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) acumulou alta de 5,45%, em 2020, enquanto o reajuste do salário mínimo de 2021 - definido todo início de ano - permanece em 5,26%, abaixo da inflação. Diante do cenário, economistas criticam o fim do auxílio emergencial e aconselham os cidadãos a reduzirem os gastos como puderem. 

    Baseado na inflação, o Governo Federal decidiu promover novo reajuste no salário mínimo a partir de 1º de fevereiro, de R$1.100 para R$ 1.101,95, afim de corrigir o INPC de 5,26% para 5,45%, segundo dados do Instituto Brasileiro de Pesquisa e Estatísticas (IBGE). Apesar da correção, segundo especialistas, o valor mínimo ainda não é suficiente para a manutenção familiar dos amazonenses.

    Insatisfeita com o reajuste, a doméstica amazonense Adriana Gomes, com cinco pessoas em casa, conta que a renda da família equivale a um salário e meio. “O reajuste do salário não corresponde com o preço dos alimentos atuais, é pouquíssimo esse valor para suprir os gastos básicos”, contesta.

    Segundo pesquisa realizada pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), aproximadamente 52% da renda é destinada para a compra de alimentos. A análise ainda mostra que o brasileiro deveria receber um salário mínimo de R$ 5.304,90, cerca de 4,82 vezes o valor atual, com uma família de dois adultos e duas crianças, de acordo com a inflação em dezembro de 2020.

    O economista Ailson Rezende explica que o salário mínimo tem a finalidade de garantir a dignidade do cidadão, assegurando o básico, como saúde e bem-estar social. Segundo ele, é uma forma de garantir o sustento familiar, além da educação. "É uma contraprestação à promoção da correlação entre trabalho e remuneração", diz.

    Apesar de garantir o mínimo para o trabalhador, o salário não consegue suprir todas as necessidades básicas de uma família amazonense, já que, por exemplo, 80% dos produtos hortifrutigranjeiros são importados - com pouca produção local - e os impostos são altos para trazer alimentos ou qualquer outro insumo para o estado, por conta da logística complicada, que depende do transporte fluvial e aéreo.

    É o que argumenta o economista Wallace Meirelles. “Nós estamos em uma região de difícil acesso, com diversos problemas estruturais, além de uma das piores logísticas do Brasil, tanto para vender como para comprar. Faço ressalva não só para o governo, mas também para a população. Precisamos de um plano para reestruturar a economia”, ressalta.

     

    Pesquisa do Dieese mostra que o brasileiro deveria receber um salário mínimo de R$ 5.304,90, cerca de 4,82 vezes o valor atual, para equilibrar o valor da inflação dos alimentos
    Pesquisa do Dieese mostra que o brasileiro deveria receber um salário mínimo de R$ 5.304,90, cerca de 4,82 vezes o valor atual, para equilibrar o valor da inflação dos alimentos | Foto: Bryan Riker

    Salário e inflação

    Baseado no Produto Interno Bruto (PIB) e no INPC, principais apontadores econômicos do país, o salário mínimo é definido. Esses índices regulam a inflação, principalmente dos alimentos, que são itens básicos para a manutenção humana. Porém, protegido pela Constituição, o trabalhador precisa ter o mínimo para conseguir se manter.

    Vale ressaltar que, no primeiro semestre de 2020, o projeto do Orçamento Geral da União de 2021 estimava o salário em R$ 1067,00. A proposta foi enviada ao Congresso Nacional, mas sofreu aumento por conta da inflação ocasionada pela crise sanitária da Covid-19. O novo reajuste deve estar disponível aos trabalhadores amazonenses a partir de 1º de fevereiro.

    De acordo com Rezende, o reajuste repõe as perdas causadas pela inflação de 2020. “O reajuste do salário mínimo é realizado considerando a inflação dos últimos 12 meses mais um ganho real, para que o cidadão não perca o poder aquisitivo”, revela.

    Com a alta nos preços por conta da inflação, o economista comenta que o consumidor tem perdido cada vez mais o poder de compra. “Apesar de a inflação estar controlada, as realidades são distintas nas cinco regiões do país. A região Norte apresenta dificuldades principalmente na produção de gêneros alimentícios, que impactam diretamente na cesta básica. O Amazonas tem um dos custos de vida mais caros da região, em razão da elevada renda per capita gerada pelo Polo Industrial de Manaus (PIM)", esclarece Rezende.

    Qual é a saída?

    Segundo Rezende, dentro dessas limitações, a orientação é poupar, buscando adquirir somente o básico. “O que nos resta é utilizar todos os mecanismos de economia que estiverem ao nosso dispor, como evitar desperdícios de água, luz, telefone, reduzir o consumo, fazer pesquisa de preço e, se possível, fazer compras coletivas para obter melhores descontos. O cidadão amazonense deve abusar de sua criatividade para geração de renda. Essa criatividade vai possibilitar que ele faça o malabarismo financeiro na corda bamba, para viver com um salário mínimo”, aconselha o economista.

    Além de poupar, Meirelles recomenda que as classes média e baixa tentem gerar renda extra para conseguir incrementar com o orçamento em casa, diante da perda do poder aquisitivo. Ele também critica o Governo Federal por não prolongar o auxílio emergencial, medida adotada em outros países.

    “O amazonense precisa, mais do que nunca, trabalhar com o pouco que tem, substituir produtos por outros, adequando o consumo ao máximo. Não é o conselho que gostaria de dar, mas vendo o corte do benefício do Governo Federal e que o salário mínimo não está repondo a inflação dos alimentos, não existe outra saída. É importante buscar produtos locais que possam atender, além de outras atividades para aumentar a renda. Não é só para a classe baixa, mas também para a média”, sugere o especialista.

     

    Segundo o prefeito de Manaus, o projeto auxílio manauara pretende contemplar 40 mil famílias com o benefício mensal de R$ 200
    Segundo o prefeito de Manaus, o projeto auxílio manauara pretende contemplar 40 mil famílias com o benefício mensal de R$ 200 | Foto: Dhyeizo Lemos/Semcom

    O economista ainda argumenta que, ao invés do Governo Federal ter cancelado o benefício, poderia se unir aos poderes estaduais e municipais para ajudar os populares, maiores afetados com a crise pandêmica. “Precisa existir essa união, criando algum sistema de renda momentânea por mais três ou quatro meses para ajudar uma população que é pobre, miserável, sem ter o que comer e nem manter suas famílias, que geralmente são grandes. É preciso ter um pouco de bom senso e mais cuidado com os ortodoxíssimos econômicos e neoliberais que circundam o país”, critica.

    Auxílio manauara

    Por conta do agravamento da pandemia, a Prefeitura Municipal de Manaus está oferecendo o auxílio manauara. O projeto pretende contemplar 40 mil famílias, com o benefício mensal no valor de R$ 200 até o fim de 2021 para ajudar famílias que estão desempregadas.

    A primeira parcela será paga em abril, segundo o prefeito de Manaus, David Almeida. "É uma das nossas propostas de campanha e está no nosso planejamento dos cem primeiros dias. Muitas pessoas perderam o seu emprego. Muitos trabalhadores informais estão com seus negócios fechados. A prefeitura vai dar sua contribuição para a população de Manaus, com o fim do auxílio do governo federal", afirma.

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