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    Bate-papo


    "A indústria não é o problema, é a solução do Brasil", diz Azevedo

    Após afirmações controversas do presidente do IPEA, Carlos Von Doellinger, o economista e vice-presidente da Fieam, Nelson Azedo, debate a importância da indústria na Amazônia para o Brasil

     

    Economista, empresário e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo
    Economista, empresário e vice-presidente da Fieam, Nelson Azevedo | Foto: Divulgação

    Manaus - Em entrevista concedida ao Valor Econômico, na semana passada, o presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), Carlos Von Doellinger, defendeu que o Brasil deixe de apoiar o setor industrial e coloque foco em suas vantagens comparativas, como o agronegócio e a mineração.

    Para o economista, empresário e vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (Fieam), Nelson Azevedo, a manifestação desastrosa do dirigente atribui-se à desinformação sobre a importância da indústria e, nesse caso da Zona Franca de Manaus (ZFM), para história social e econômica do Brasil.

    EM TEMPO - Recentemente você publicou um artigo ironizando o presidente do IPEA, Carlos Von Doellinger. Isso significa que o Governo Federal quer esvaziar a indústria nacional e levar junto a ZFM?

    Nelson Azevedo - Não diria isso, porque seria uma ingratidão com o governo Bolsonaro. Este governo tem dado sinais de que irá resguardar nossos direitos constitucionais na reforma tributária. E estamos crentes de sua convicção de que, enquanto houver ZFM, haverá soberania do Brasil sobre a Amazônia.

    Atribuo as manifestações desastrosas do presidente do IPEA à desinformação sobre a importância da indústria na história social e econômica do Brasil e a importância da indústria na Amazônia, responsável - por exemplo - pela manufatura de produtos regionais, hoje chamada bioeconomia, um dos caminhos de economia sustentável na diversificação do Polo Industrial de Manaus (PIM).

    EM TEMPO - E qual a importância em manter a ZFM?

    Nelson Azevedo - A melhor resposta é imaginar como seria o Amazonas sem o programa ZFM. Estaríamos usando a floresta para sobreviver. Ou seja, desmatando sem critérios. Isso teria um custo ambiental para o Brasil incalculável e inaceitável para o planeta que tem nos reconhecido como Indústria sem chaminés. Não teríamos uma das principais plantas industriais do Brasil e não estaríamos no topo do ranking nacional em agregação de valor na indústria de transformação. Também não teríamos a Universidade do Estado do Amazonas (UEA), entre outros preciosos benefícios para a sociedade.

     

    "A melhor resposta é imaginar como seria o Amazonas sem o programa ZFM", diz Azevedo
    "A melhor resposta é imaginar como seria o Amazonas sem o programa ZFM", diz Azevedo | Foto: Marcio Melo

    EM TEMPO - Voltando a trama do IPEA, como pode uma instituição focada na pesquisa e no planejamento desconhecer uma indústria tão importante, numa região tão estratégica, como a ZFM?

    Nelson Azevedo - O IPEA tem 57 anos de pesquisas e planejamento com positiva visibilidade e respeito das instituições de ensino e pesquisa do Brasil e do exterior. Foi fundada em 1964, pelo governo do General Humberto de Alecar Castelo Branco e traz uma bagagem de informações e subsídios de governança de extrema relevância. Lamentável que seu dirigente queira esvaziar a indústria e transformar o Brasil num grande roçado.

    EM TEMPO - Um grande roçado? Explique melhor esse absurdo.

    Nelson Azevedo - Essa imagem foi utilizada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), o empresário Robson Andrade, para rebater as referências depreciativas do presidente do IPEA, Carlos Von Doellinger. E de fato é um absurdo expandir por todo país o agronegócio às custas da desindustrialização do país e de outras atividades produtivas.

    Os produtos do PIM estão presentes na vida de todos os brasileiros e dos países que importam estes itens a partir de Manaus. Desinformação ou má-fé? Não saberia dizer. Desindustrializar o país, como projeto, exigiria dar uma resposta consistente para os investidores e para as instituições de ensino pesquisa e desenvolvimento. Teremos que fechar as portas para os empreendedores na área fabril e ainda desestruturar as instituições acadêmicas, demitindo uma multidão de docentes e demais trabalhadores do ensino, só deixando de fora as especialidades do grande roçado nacional.

    EM TEMPO - Qual sua proposta para conciliar agronegócio e indústria?

    Nelson Azevedo - Essa pergunta é extremamente oportuna. Se a indústria fosse esvaziada, nós estaríamos radicalmente na dependência de outros países. Daquilo que chamamos de cadeia de suprimentos e produtos. Isso comprometeria a balança comercial, a segurança nacional e iria repetir o sufoco provocado pela quebra da cadeia asiática de suprimentos no início da pandemia. A indústria parou em vários segmentos porque não tínhamos alguns componentes para trabalhar. E o que é pior, os hospitais ficaram sem equipamentos de proteção e de enfrentamento da COVID-19, como respiradores, oxímetros, entre outros itens. Ainda bem que nossa indústria não contou vantagem e se meteu a substituir importados.

    Quanto ao agronegócio, diria que é algo essencial para o Brasil, e que temos terra suficiente para expandir seu crescimento. É insensato imaginar a derrubada da floresta para fazer pasto. A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) já mostrou que temos terra e tecnologia para empinar os negócios do campo sem desmatar nossa preciosa floresta.

    EM TEMPO - E qual é a lição que este lamentável episódio nos deixa?

    Nelson Azevedo - Precisamos ficar atentos aos alquimistas e aos visionários que acordam achando que descobriram a lâmpada maravilhosa e que eles só precisam verbalizar seus desejos estapafúrdios. A indústria não é o problema, muito pelo contrário, é a solução do Brasil. Não apenas na geração de emprego e novos negócios. E mais benefícios traria se não fosse obrigada a pagar as taxas tributárias mais pesadas entre as nações com deploráveis contrapartidas de serviços.

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