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    Desemprego


    No Amazonas, desemprego cresce entre os mais velhos durante a pandemia

    No estado, a taxa de desemprego para pessoas de 40 a 59 anos alcançou 8,2% e para pessoas com 60 anos ou mais, chegou a 2,8%

     

    No Brasil, a taxa chegou a 7,2% para as pessoas a partir dos 50 anos
    No Brasil, a taxa chegou a 7,2% para as pessoas a partir dos 50 anos | Foto: Divulgação

    Manaus – Diante da crise ocasionada pela pandemia da Covid-19, o desemprego aumentou drasticamente no Brasil, chegando a bater o recorde de 14,2% no trimestre encerrado em janeiro desse ano, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A situação é ainda mais agravante para aqueles que estão acima dos 40 anos. No Amazonas, a taxa de desemprego para pessoas a partir dessa idade chegou a 11%. Amazonenses revelam as dificuldades de tentar continuar no mercado de trabalho.

    De acordo com levantamento feito pelo IBGE, a taxa de desemprego para pessoas de 40 a 59 anos alcançou 8,2% e para pessoas com 60 anos ou mais, chegou a 2,8% no primeiro trimestre de 2020 - dados mais recentes no estado. No total, o desemprego no Amazonas atingiu 11% dessa população.

    No Brasil, no último trimestre de 2020, a taxa de desemprego para pessoas mais velhas, a partir dos 50 anos, chegou a 7,2%, segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV). A porcentagem é 7% maior que o menor índice que a pesquisa apresentou no mesmo período em 2012, com 2,7%.

    O amazonense Origenes Martins, 66, faz parte desse grupo de pessoas que procura emprego, mas não encontra. Após trabalhar durante oito anos em uma empresa na capital, o economista foi demitido, em decorrência da pandemia. Ele conta que chegou a receber homenagens no local onde trabalhava por ser o melhor funcionário do setor, mas mesmo assim não foi poupado da demissão em março.

    Desde o primeiro momento da pandemia, Martins conta que boa parte das empresas em Manaus foi obrigada a dispensar funcionários, porém, escolheram os de mais idade para deixar as funções. E, segundo ele, não foi por falta de qualificação. Com experiência e conhecimento, o economista é mestre em Administração e atuou como professor universitário durante 30 anos.

    Ao receber a notícia, Martins precisou se organizar, primeiro mentalmente, e depois em suas finanças para lidar com o momento delicado. “A demissão me pegou de surpresa e me obrigou a reestruturar toda a minha rotina e meus objetivos. Tive que me reinventar como a maioria dos desempregados na pandemia”, relata.

     

    Durante a pandemia, muitos funcionários com mais idade acabaram sendo demitidos na capital
    Durante a pandemia, muitos funcionários com mais idade acabaram sendo demitidos na capital | Foto: Divulgação

    Por hora, o economista explica que o mercado está parado, mas diz que quando encontrar uma oportunidade, irá retornar ao mercado de trabalho. “Tenho 66 anos e não tenho impedimento para trabalhar. Conheço várias pessoas que foram demitidas por conta da pandemia e, pelo menos, 50% delas não conseguiram se reempregar. Muitos estão trabalhando realizando prestação de serviço em casa”, esclarece.

    Assim como Martins, a revisora Áurea Almeida, 52, perdeu o emprego durante a pandemia. Há um ano, a fábrica onde trabalhava na Zona Franca de Manaus (ZFM), no Polo de Eletroeletrônicos, dispensou parte dos funcionários por conta da crise econômica. Desde então, Almeida não conseguiu outro trabalho formal, mesmo levando seu currículo em diversos lugares na cidade.

    Ao entrar em contato com as empresas, a revisora sentiu que a idade era um empecilho para conseguir ser contratada. “Está difícil conseguir um trabalho, principalmente por conta da idade, pois não querem mais contratar pessoas acima dos 50. Todas as vezes, o entrevistador dava uma ênfase na idade – ‘ah, você tem 52 anos, qualquer coisa ligamos’. Não é fácil”, desabafa.

    Para agravar ainda mais a situação, seu esposo Cristiano Pires, 52, está desempregado há quase quatro anos. Com duas filhas adolescentes para sustentar, uma de 15 anos e outra de 12, a família passa por dificuldades, com trabalhos esporádicos, para conseguir o sustento básico.

    Recrutamento

    Ao passar por uma entrevista de emprego, os recrutadores consideram algumas características básicas, dependendo da função. O gerente de Recursos Humanos (RH) João Castro atua no ramo há dez anos na capital e conhece bem o processo e as exigências ao realizar um processo seletivo.

    Segundo Castro, nem sempre a empresa vai selecionar um candidato com maior bagagem profissional, justamente por ter que pagar a mais pela experiência já adquirida, principalmente em tempos de pandemia. Em algumas instituições, o gerente de RH ressalta que o empregador prefere contratar uma pessoa mais inexperiente e treiná-la para não assumir maiores despesas, como plano de saúde e outros benefícios.

    Dentre esses fatores de impedimento que algumas corporações apresentam, Castro destaca que a maior justificativa está no receio de existir baixo rendimento do funcionário e por conta dos problemas de saúde que podem aparecer nas pessoas acima dos 50 anos - ocasionando ausência na empresa. Mesmo tendo conhecimento que há contratos para esse público, o profissional afirma que são exceções, e não a regra.

     

    Em algumas instituições, o gerente de RH ressalta que o empregador prefere contratar uma pessoa mais inexperiente e treiná-la
    Em algumas instituições, o gerente de RH ressalta que o empregador prefere contratar uma pessoa mais inexperiente e treiná-la | Foto: Reprodução

    A falta de domínio ou familiaridade com o mundo virtual e tecnológico é outro ponto que atrapalha nesse processo seletivo. “Não sei se é falta de interesse para a maioria das pessoas nessa idade, mas saber manusear um computador ou um celular é um requisito básico nos dias de hoje. Até o carteiro, que antigamente só deixava a carta e assinava manualmente, agora precisa manusear um tablet para registrar as entregas. O porteiro também precisa acessar o computador para ter acesso às câmeras. Cada função vai se atualizando e, se o interessado não decidir se atualizar, vai ficar para trás”, analisa o gerente.

    Mercado de trabalho

    A economista Denise Kassama afirma que, com o alto número de desemprego no Amazonas, é natural que o mercado de trabalho seja cada vez mais seleto. Em Manaus, Kassama salienta que não é incomum a dificuldade de colocação no mercado após certa idade. Segundo ela, visto que a busca por emprego é significantemente maior do que a oferta, a exigência dos empregadores também é maior, gerando competitividade entre os candidatos às vagas.

    E nessa concorrência, o que era um diferencial há décadas, hoje é uma exigência básica, como o interessado na vaga ter o ensino superior. A distinção gira em torno do candidato possuir domínio de línguas estrangeiras, mestrado, entre outros, dependendo da área de atuação. “O processo acaba sendo cruel também ao dispensar os sem experiência e os com idade mais avançada”, pontua Kassama.

    Desempregado, e agora?

    Para lidar com essa disputa acirrada, a economista recomenda que o profissional acima dos 50 anos busque se reciclar, se atualizar, buscando novas competências e ferramentas de trabalho para se manter na função ou mesmo ao buscar novas oportunidades diante de uma demissão, principalmente no período da pandemia.

     

    A economista recomenda que o profissional acima dos 50 anos busque se reciclar, se atualizar, buscando novas competências
    A economista recomenda que o profissional acima dos 50 anos busque se reciclar, se atualizar, buscando novas competências | Foto: Divulgação

    Apesar de aconselhar o trabalhador experiente a estar sempre atualizado na função que atua, Kassama apresenta outra possibilidade para os desempregados. “Caso tenha sido demitido e não tenha conseguido outra colocação, que tal empreender? Buscar outras competências, se unir com outros colegas que estão na mesma situação e formar uma cooperativa, uma microempresa e oferecer seus serviços no mercado? Nesta pandemia, perante o desemprego, muitas famílias acabaram transformando o hobby ou a atividade complementar em principal sustento”, orienta.

    A gerente de gestão estratégica do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas no Amazonas (Sebrae), Socorro Corrêa, também incentiva o empreendedorismo como saída da crise. Para começar, Corrêa recomenda que os mais velhos comecem a fazer cursos sobre negócios para aumentar a rede de relacionamento, se especializar em outra área e empreender até em uma área que goste de atuar, mas que está adormecida.

    Corrêa ainda pontua que os avanços da medicina em aumentar a longevidade dos seres humanos não têm sido levados em conta na hora de contratar. Em 2019, a expectativa de vida era de 76,6 anos, três meses a mais do que a de 2018, com 76,3 anos, segundo o IBGE.

    Nessa linha de pensamento, a também economista critica a postura das empresas diante do potencial das pessoas nessa faixa etária, já que há uma boa representatividade da população. “O mercado de trabalho não mudou o conceito de idoso. Pessoas com mais de 40 anos já encontram dificuldades para se inserir e o quadro piora para quem tem 50 ou 60 anos. Estamos entrando numa fase que teremos uma grande fatia da população com mais de 50 anos no país. Não dá para ignorar este fato”, considera.

    Independentemente da situação, a gerente sugere que o cidadão, não limitando por idade, passe investir em um plano de previdência privada para se aposentar. Mesmo com o trabalhador prejudicado pela Reforma da Previdência, em 2019, Corrêa recomenda que os amazonenses contribuam para não ficarem desamparados depois. O sistema previdenciário exige que a mulher tenha 57 anos de idade e 30 anos de contribuição para se aposentar e o homem 62 anos e 35 anos de contribuição.

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