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    Crônica


    Minha filha ensinou-me a ser mais objetivo e generoso

    Faz uns dois anos e minha filha colecionava figurinhas com a finalidade de completar um álbum. Com essa experiência, ela deu-me uma lição. Descubra o porquê:

    Faz uns dois anos e minha filha colecionava figurinhas | Foto: Divulgação

    No final do mês passado tive uma perda grande, um ente muito querido fez a passagem. Isso me faz refletir sobre a única certeza que temos: a de caminhar inexoravelmente em direção à morte.

    A cultura ocidental não costuma refletir sobre a morte e nós brasileiros, menos ainda, porém uma hora ela chega e devemos estar minimamente preparados.

    No meu caso, esse familiar já estava há quase um mês na UTI, assim eu já estava preparado para a ocasião. Minha família não é numerosa e, agora ficou menor ainda. 

    Nessas ocasiões de velório você encontra aquele primo que faz muito tempo que não vê e/ou até descobre primos que você não conhecia. Também há pessoas que você só conhece de nome, mas que nunca havia visto. Isso sem falar nos amigos da família.

    Dentre esses amigos da família, encontrei dois em especial, falamos algumas frivolidades e depois seguimos. O tempo e a distância tornam as coisas mornas, mas me lembrei, que em certa ocasião, esses dois amigos discutiam sobre a venda de um bem, acho que era uma casa, mas não lembro ao certo, pois era muito criança, mas era algo nesses termos:

    Um deles tinha um bem pra vender e queria 50 mil (valor fictício) e outro disse que venderia, mas venderia por 70 e inclusive já tinha comprador. Claro que essa diferença seria a sua comissão.

    O outro pensou e disse que não, porque nessas condições ele daria 5 mil de comissão e ficaria com o resto, uma vez que ele "ganharia" muito na venda de um bem que não lhe pertencia.

    E ficaram discutindo por um bom tempo. Quando eu era pequeno gostava de ouvir os adultos conversando, principalmente meu pai. Embora não fosse letrado, meu pai tinha um vocabulário muito rico e eu sempre aprendia bastante ouvindo as conversas dele.

    Depois de algum tempo enjoei de vê-los discutir e voltei a brincar. Anos depois, já adulto soube que eles não fizeram negócio, o bem desvalorizou e foi vendido bem abaixo dos 50 mil esperados.

    Sabedoria da filha criança...

    Faz uns dois anos e minha filha colecionava figurinhas com a finalidade de completar um álbum. Como todo item colecionável, há os itens comuns e os itens raros. Ela já estava em vias de completar o álbum e faltava somente uma figurinha, o item raro.

    Em uma das vezes que fui buscá-la na escola ela pediu para eu esperar um pouco que precisaria trocar uma figurinha, eu segui com ela. Ela encontrou uma amiguinha e fizeram a troca. Minha filha deu umas 10 figurinhas ou mais e recebeu de volta a que lhe faltava para completar a coleção.

    Nos afastamos e, eu no meu pensamento pequeno e mesquinho, perguntei se a troca teria sido justa porque ela havia dado um número muito grande de figurinhas e recebido em troca somente uma.

    E ela respondeu: "Claro que sim, pai. Eu ganhei a figurinha que queria e minha amiga ganhou as que ela ainda não tinha. Eu já tenho essas figurinhas mesmo, não preciso, assim vou ajudar minha amiga a completar o álbum dela".

    Fiquei perplexo, tanta sabedoria em uma miúda de apenas oito anos.

    Desde de cedo aprendemos a ser "espertos", a cultura do sempre tirar vantagem em tudo. Inadmissível eu sair "perdendo" em uma negociação, o ganha x ganha é só uma teoria.

    Aplicamos esse pensamento em tudo o que fazemos, na escola, no trabalho, com os amigos, nos relacionamentos e em todos os ambientes que tomamos parte. E com isso falhamos miseravelmente toda vez que precisamos fazer a coisa certa.

    Este amigo da família deixou de fazer um bom negócio porque achou que seria enganado ou tiraria menos proveito da situação, quando na realidade bastaria aceitar a proposta e "ganhar" o que lhe seria justo.

    Deste episódio da troca de figurinhas aprendi com a minha menina a ser mais objetivo e generoso, pois o objetivo dela era completar o álbum e, foi o que ela fez com a troca. Mas não só isso, ela ainda foi extremamente generosa, uma vez que a troca simples resolveria a situação, mas ela resolveu dar mais a amiga para ajudá-la a completar o álbum da colega.

    Quanto ao meu ente querido, guardo as boas recordações de quando estava conosco e, toco a vida me preparando melhor, para quando o meu bilhete da grande viagem chegar, eu esteja minimamente preparado.

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