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    Educação


    Os desafios para o professor na era digital

    Formar as novas gerações é um grande desafio para o professor. Mas como a era digital tem aberto caminhos para mudanças na formação dos alunos? Confira o que diz a profª Suelem Nascimento sobre o ensino e as tecnologias na educação

    Os desafios para o professor na era digital | Foto: Divulgação

    São inúmeros os desafios para o professor em um momento de tantas mudanças políticas e sociais na busca de soluções para os reais problemas por qual passa a educação no País. Problemas à parte, ser professor se torna uma tarefa gratificante em se tratando de uma carreira que exige preparo não apenas didático, mas também emocional para lidar com situações adversas no ambiente escolar.

    E como premissa maior o professor tem ainda a missão de instruir o educando a enxergar o mundo com ‘novos olhos’. Contudo, a era digital e as novas tecnologias abriram de fato caminhos para uma nova visão de ensino, fazendo da aprendizagem a base mestra para formar indivíduos mais bem preparados para o presente e futuro. 

    Projetos na educação   

    A professora Suelem busca no ensino formar jovens para o futuro
    A professora Suelem busca no ensino formar jovens para o futuro | Foto: Oziete Trindade

    Mas como as novas gerações veem hoje o papel do professor na escola e em sua vida prática? Qual a didática utilizada pela escola para tratar de assuntos ligados à religião, bullying, drogas e identidade de gênero? Como os docentes analisam as mudanças na educação brasileira e projetos do governo de medidas contra o analfabetismo, a implantação do ensino em período integral nas escolas e domiciliar de crianças e adolescentes dirigido pelos próprios pais ou responsáveis? 

    E por que uma profissão que forma tantas outras não recebe incentivo de políticas públicas para melhoria salarial e garantia de melhores condições de trabalho? Para responder a essas e outras questões que abrangem o papel do professor na educação brasileira e antecipando uma homenagem ao Dia do Professor comemorado no dia (15) de outubro, a reportagem do Portal em Tempo conversou com a professora de Língua Portuguesa, Suelem de Fátima Almeida do Nascimento, da Escola Estadual Profª. Eunice Serrano Telles de Souza, localizada na região central da capital amazonense.    

    Dedicação ao ensino 

    Manauara da capital, casada e mãe de dois filhos, um arquiteto e uma fisioterapeuta, a profª. Suelem Nascimento, 56 anos, é formada em Letras pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas) com licenciatura plena em Literatura Portuguesa e Brasileira, mestrado em Educação e está prestes a concluir o doutorado, para o qual já prepara sua dissertação. “Comecei como docente no Magistério, onde fiquei por 4 anos trabalhando com crianças de até 2 anos, passando pelo Fundamental I (do 1° ao 5º) e Fundamental II (6° ao 9°), conta ela, ressaltando que atua há 28 anos como educadora, profissão na qual imprime total dedicação.    

    Sobre as novas tecnologias na era digital, ela explica que tem sido realmente um grande avanço na área do ensino para acesso ao conhecimento, entretanto, a realidade das escolas públicas hoje no Brasil não dá condições para que se faça um bom proveito de tudo o que a tecnologia oferece para que o educador possa desenvolver um bom trabalho na sala de aula. 

    “Infelizmente, a realidade em nossas escolas não nos oferece subsídios para que possamos tirar proveito de todos os avanços presentes hoje nesse universo digital. O nosso material didático ainda é muito precário. Eu diria que chega a ser uma ‘utopia’ se pensar no uso de tecnologia na escola púbica. E falo isto porque já ensinei em instituições particulares e a realidade é completamente outra.

    Até temos feito o uso do celular em algumas aulas. Mas essa metodologia ainda é um pouco restrita, pois não há como acompanhar uma atividade desse nível a partir do momento em que contamos com um total de 45 alunos por sala de aula; um número muito grande. E quem perde com isso são eles. É uma nova geração que acaba ficando desatualizada em relação a outros estudantes que convivem dia a dia com toda essa evolução no ensino”, ressaltou. 

    Já em relação aos projetos do Ministério da Educação com medidas contra o analfabetismo, o ensino em período integral nas escolas e domiciliar de crianças e adolescentes dirigido por pais e responsáveis a profª é enfática em dizer que as intenções podem ser boas, mas não são viáveis e reais. 

    “A questão maior de se pensar em implantar esses projetos é justamente a falta de estrutura para isso. Inclusive no que remete à vida familiar de nossos alunos, que geralmente não têm uma convivência diária com os pais porque a grande maioria trabalha fora e é justamente na escola que eles encontram amparo acadêmico, moral e muitas vezes psicológico para orientá-los quanto ao mundo lá fora”, destacou. 

    Preparo para o futuro

     Alunos do 1° ano do Ensino Médio sob a orientação da professora Suelem
    Alunos do 1° ano do Ensino Médio sob a orientação da professora Suelem | Foto: Oziete Trindade

    A aluna do 9º ano do Fundamental II, Gabrielly Pereira, 14 anos, diz que é no ambiente escolar que busca o preparo acadêmico para concretizar seu desejo de seguir carreira na área de segurança pública. “Eu gosto muito da escola, aqui eu me sinto bem e faço o possível para aprender tudo o que os professores nos ensinam porque pretendo ser policial ou perita criminal, profissões que eu admiro muito”, disse. 

    Quanto à possibilidade de vir a ser uma professora no futuro, ela diz que também admira muito a profissão, mas observa que é uma atividade muito estressante porque tem que instruir várias pessoas ao mesmo tempo e, por isso, não está em seus planos.  

    Já o aluno do 1° ano do Ensino Médio, Bruno Coelho, 15 anos, afirma que pensa em ser educador pois acredita que o professor é a base para a vida de todos na sociedade. “Aqui na escola me sinto à vontade. Penso em ser professor, mas gosto também de medicina, pois sou excelente aluno em Biologia. Língua Portuguesa não é muito meu forte, mas a profª Suelem tem conseguido tirar minhas dúvidas quanto à parte de gramática, por exemplo. 

    Sobre assuntos relacionados a drogas, bullying ou identidade de gênero eles encaram com maturidade para saber o que é certo ou errado e a não ter preconceitos sobre temas que envolvam colegas de escola para não causar constrangimento. Quanto ao uso do celular em sala de aula, eles dizem que gostariam que fosse mais frequente, pois é um acessório moderno e que auxilia muito nas pesquisas. 

    Didática e bom senso   

    Para a profª Suelem, falar de temas como religião, drogas, bullying e identidade de gênero se torna uma tarefa bem delicada no ambiente escolar porque muitos desses assuntos  são caracteristicamente pessoais, por isso usa de bom senso e da didática para tratar essas questões com seus alunos. “Eu costumo associar esses assuntos nas minhas aulas normais, adequando cada tema com o conteúdo da aula. Procuro encontrar sempre uma oportunidade de falar o que cada um precisa saber para fazer uma boa escolha para sua vida”, destacou. 

    Proficiência no IDEB

    Apesar das dificuldades pelas quais passa o ensino público no País, a Escola Profª Eunice Serrano ficou em primeiro lugar entre as escolas públicas estaduais inscritas em 2017 no exame de proficiência no Ensino Médio (desempenho e rendimento escolar) em Língua Portuguesa pelo IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), que é medido pela qualidade do aprendizado nacional dos estudantes nas avaliações educacionais obtidas no censo escolar para aplicação de uma prova padronizada (Prova Brasil) pelo Ministério da Educação, a fim de estabelecer metas de melhoria do ensino básico no País.    

    Para a equipe pedagógica da escola, formada pela gestora Maria Alice Dinelly Mafra, Maza Barreto (pedagoga), Keyla Correia (coordenadora de disciplina), entre outros profissionais de ensino sob a supervisão da Secretaria de Estado da Educação do Amazonas (SEDUC), esse resultado foi muito importante porque mostra o comprometimento da instituição em adotar uma metodologia que leve o aluno a ter interesse pelo ambiente escolar, desenvolver habilidades e a crescer academicamente. Elas explicam que o trabalho é desenvolvido pelo corpo docente tomando como base o estímulo à leitura através de apresentações teatrais para um maior incentivo também à cultura do estado.   

    Papel do professor    

    Momento de descontração para as fotos
    Momento de descontração para as fotos | Foto: Oziete Trindade

    Segundo a profª Suelem, todo projeto de melhoria para a educação é bem-vindo, entretanto, é preciso avaliar a realidade de cada região, sobretudo das instituições públicas sejam elas estaduais ou municipais para que se busque uma solução mais precisa para os problemas hoje apresentados no ambiente escolar. E ela chama atenção para algumas questões: 

    “É preciso repensar o papel do professor em nosso País.  As dificuldades englobam vários aspectos, desde a infraestrutura das escolas até o piso salarial, pois não temos uma política justa para o que representamos. E essas questões fazem com que os jovens não queiram seguir a carreira de magistério, mesmo sabendo da sua importância. Além disso, muitos dos nossos alunos têm problemas com déficit de aprendizagem, temos adolescentes autistas, entre outras coisas. O papel do professor hoje vai muito além do conteúdo didático. E isso precisa ser reavaliado pelos órgãos superiores de educação”, concluiu.   

    *Oziete Trindade é jornalista, graduada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pela FMU/SP e pós-graduada nível Lato Sensu em Comunicação/Marketing Político pela Fundação Cásper Líbero/SP.  

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