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    Abuso sexual


    Depoimento: fui estuprada pelo meu pai, que era meu ídolo

    A vítima do abuso revela o sentimento que nutre até hoje, ao lembrar das cenas que vivenciou como protagonista daquela relação incestuosa

    Vítima conta os traumas que viveu durante a adolescência
    Vítima conta os traumas que viveu durante a adolescência | Foto: Lucas Silva

    Era madrugada. Ainda se ouvia o silêncio da noite quando Ana* viu seu mundo desabar. Sem entender muito bem o que acontecia, entre beijos e carícias, ela foi estuprada pelo próprio pai. A garota viveu a realidade de muitas meninas que são vítimas desse tipo de violência. Fazendo uma volta ao passado, relata as incertezas, os medos e a revolta que a consumiu no período em que foi abusada. A vítima do abuso revela o sentimento que nutre até hoje, ao lembrar das cenas que vivenciou como protagonista daquela relação incestuosa.

    Leia o depoimento:

    Meu pai era o meu herói. E ele destruiu a minha vida.

    A primeira vez aconteceu na casa de uma tia. Eu estava semidormindo na sala. Senti aquela mão em mim. Era meu pai. Ele tinha bebido e talvez usado drogas. Começou a me aliciar. Eu me afastei. Não queria. Eu tinha 13, 14 anos. Ano de 2009. Quando a gente tem essa idade, não sabe definir de fato o que era o carinho. O que eu pude eu evitei.

    Achei estranho o ocorrido e comecei a me perguntar se toda relação entre pai e filha era assim. Quando via uma família na rua, lembrava daquelas cenas e achava que acontecia com todas as meninas. Até me culpava por estar questionando.

    Noite após noite, aquelas cenas se repetiam. Cada dia pior. Foram 5 meses de abuso constante. Era horrível. Eu não queria, mas eu não podia falar nada porque eu estava morando com ele em um outro estado, longe da minha família, de todo mundo, e eu tive que aguentar. Eu aguentei por condições financeiras porque eu não sabia o que eu ia fazer, eu era menor de idade e não sabia para onde ia.

    Na primeira vez em que houve penetração, eu senti dor, mas eu não era mais virgem. Havia rolado uma experiência horrível com um garoto da escola. Foi ele quem tirou a minha virgindade. Mas também foi péssimo.

    O meu pai sempre me pedia segredo e me ameaçava. Eu tinha muito medo. Algumas vezes, ele usou camisinha e outras não. Eu me sentia mal. Sentia nojo de tudo aquilo. Inclusive, houve uma vez que ele ejaculou dentro de mim e me pediu para tomar uma pílula do dia seguinte. Fui obrigada a tomar. Foi difícil viver tudo isso.

    Ele me obrigava a fazer coisas de que eu não gostava, sexo oral, coisas bem pesadas, assim que lembrar me faz ficar meio ruim. Ele até me questionou um dia sobre o que eu achava de ele convidar uma outra pessoa para participar também... nem respondi. Ficava pensando como me livrar de tudo aquilo.

    Vítima foi abusada pelo próprio pai
    Vítima foi abusada pelo próprio pai | Foto: Divulgação

    O desejo de fugir

    Eu estava com ele em São Paulo. Eu tinha medo que acontecesse uma coisa pior se eu fosse embora. Minha mãe, nessa época, havia deixado de falar comigo, pois ela estava casada com um rapaz e me expulsou de casa por causa dele. Então, eu estava sem opção. Meus amigos notavam, nas minhas publicações no Orkut, na época, o meu jeito estranho.

    Por meses, fiquei perdida no meu mundo, escondida. Quando eu decidi falar, eu já estava no meu limite, cheia de tudo aquilo porque ele me mantinha ali presa. Um dia tomou meu celular. Não me deixava falar com ninguém. Ele me violentava psicologicamente. Tentou me agredir fisicamente, mas nunca fez isso.

    Chegou uma época em que eu fiquei confusa porque eu não sabia mais o que era um pai, e se isso acontecia em outras famílias. Mas, ele me dizia que era normal e que ele era meu pai, e podia fazer o que quisesse comigo.

    Quando consegui falar

    Algumas pessoas demoram anos. Eu conheço casos de pessoas que começam com oito anos e o abuso vai até 15, 16. Eu demorei cinco meses.

    Cheia de tudo aquilo, um dia, liguei para minha mãe, contei tudo e ela acreditou em mim. Mas, lá na casa onde eu estava, ninguém acreditou, até porque ele disse que eu fiz teatro e sabia representar.

    Meu pai era meu herói. Um cara de quem eu tinha muito orgulho. Então, para mim, foi uma traição dupla.Eu tinha medo dele por ele ser meu pai, mas falei... falei para todo mundo e foi muito ruim...

    A minha mãe já havia se separado do rapaz e me recebeu. Eu fui um pouco rebelde na minha adolescência, mas só porque eu queria o meu espaço, morar em uma casa nossa. Tanto é que, depois desses episódios todos, eu fui morar sozinha, e eu moro sozinha há 11 anos. E eu não tinha isso porque eu sempre estava na casa dos outros, eu era uma agregada.

    O perdão e a tentativa de novo abuso

    Eu voltei. Depois de uns três meses, meu pai voltou e me pediu perdão. E eu perdoei, porque eu o amava muito e eu precisava de uma estrutura. Queria estudar e conseguir o mínimo de estabilidade. E ele me deu.

    Porém, um belo dia, ele disse que nós tínhamos um evento em um lugar turístico. Chegando lá, era mentira. Perguntei se íamos dormir em quartos separados e ele disse que só tinha conseguido um quarto. Daí, ele bebeu... tentou, mais uma vez, me aliciar. Mas, eu não deixei. Falei para o hotel inteiro, foi uma briga horrível, nós viemos embora para a cidade.  

    Após uma semana, foi lá em casa. Eu não havia contado para minha mãe, porque ela estava muito debilitada, quis poupá-la. Então, eu segurei a minha onda. Mas, chegou um momento que eu precisei contar. Nesse dia, a polícia foi lá e ele foi preso, por ter agredido minha mãe.  Como ele tinha amigos influentes, a polícia não quis denunciá-lo por estupro.

    Fizemos um acordo extrajudicial. Ele não podia se aproximar de mim. Eu não quis que ele descesse para a penitenciária porque eu não queria levar a culpa pela morte dele. Todo mundo dizia que era isso que iria acontecer. 

    Relação entre minha mãe e meu pai

    A minha mãe o odeia. Ela se sente culpada por tudo que aconteceu comigo. Como eu a amo muito, prefiro não julgá-la, embora ela ache que falhou como mãe, mas aí já é algo que ela tem que resolver. Mas eu sou filha, eu me coloco no papel de filha, não no papel de mãe. Eu sou a única filha do casal.

    Conversa com especialistas

    Hoje, me arrependo de não o ter deixado ir para a cadeia. Podia ser que meu sofrimento tivesse diminuído. Um advogado criminalista me disse que eu era menor de 14 anos, à época, a ação penal era pública incondicionada, e que o MP poderia denunciá-lo. Esse crime é hediondo.

    Em conversa com o psicólogo, entendi que, quanto mais próxima de nós a pessoa é, e mais investida de simbolismo, de emoções, como é o caso do meu pai que era meu ídolo, maior é o dano. O sofrimento é proporcional ao valor que ele tem para mim.

    Também nas diversas vezes em que me vi pensando o que levaria um pai a desejar a própria filha, a ponto de praticar esses abusos, ouvi do psicólogo que o adoecimento mental se dá em diversos níveis. Que vários fatores concorrem para esse fenômeno. Desde uma sociedade altamente erotizada, como a nossa, até padrões familiares permissivos, além de psicopatias mais severas.

    Sei que várias meninas vivem o que eu vivi. Não é fácil se livrar dos traumas. Nós precisamos da ajuda de profissionais, como psicoterapeutas, psiquiatras, médicos, juristas. Acredito até que um sacerdote pode ajudar bastante.

    Das minhas muitas dúvidas até hoje, uma delas é se seria possível ocorrer o perdão a ponto de retomarmos, um dia, relação de pai e filha. Na terapia, vi que responder a essa questão é difícil. Talvez pela via de uma espiritualidade autêntica e profunda seja possível.

    Segundo o psiquiatra, na lógica psicológica, é sempre saudável mostrar e estimular as pessoas a seguirem suas histórias, independentemente do tamanho da tragédia.

    Ainda tenho em mente um direcionamento que o psiquiatra me deu. Ele disse que, se uma pessoa conseguir compreender o princípio de Vicktor Frankl, na logoterapia, poderá ser ajudada. Também tenho à mente que: "Não importa o que fizeram a você, e sim o que você fez do que fizeram a você". Essa reflexão me diz que talvez eu consiga me tornar tão grande, que eu possa perdoá-lo e retomar a relação, mas será na versão de uma adulta, que já sabe se defender.

    Depois de tudo isso, eu sigo em frente.  Não me livrei do trauma. Luto diariamente pelas minhas conquistas, um passo de cada vez, mas ainda sem um final para essa história.

    *O nome foi alterado para preservar a identidade da vítima.

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