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    Esporte


    Paratleta amazonense vence preconceito e coleciona títulos

    Alex Taveira luta jiu-jitsu com outros atletas sem deficiência e relata que o bom humor foi a principal arma contra os obstáculos da vida

    Deficiência nunca foi empecilho para Alex Taveira. | Foto: Divulgação

    Manaus - "Minha paixão é a luta". Esta afirmação do paratleta Alex Taveira, de 33 anos, é um verdadeiro retrato da trajetória do esportista que foi pelo menos 10 vezes campeão amazonense de jiu-jitsu.

    A deficiência congênita na perna direita não o impediu de representar o estado em competições nacionais e internacionais. Atualmente, o lutador enfrenta um drama familiar e se prepara para participar do Grand Slam Los Angeles, que acontece nos dias 14 e 15 de setembro, nos
    Estados Unidos

    Só de faixa preta, Alex tem quase 13 anos.
    Só de faixa preta, Alex tem quase 13 anos. | Foto: Arquivo Pessoal

    Só de faixa preta, Alex tem quase 13 anos. Ele conta que nunca se vitimou por conta de sua condição. "Eu sempre tive um jeito descontraído, bem-humorado", relata. Tanto que mesmo podendo competir com outros paratletas, Alex compete em categoria normal, até 56 quilos. 

    No currículo tem vários mundiais e o título de campeão pan-americano, adquirido nos Estados Unidos. Recentemente, Alex foi vice-campeão em Abu Dhabi, categoria normal, e ganhou o Gran Slam em Londres, que ocorreu nos dias 9 e 10 de março deste ano. 

    A paixão pelo jiu-jitsu começou quando ele tinha entre 11 e 12 anos. Morador do bairro Alvorada, Zona Centro-Oeste da cidade, desde pequeno sempre mostrou muita aptidão para o esporte. A habilidade mostrou nos campinhos de futebol entre os amigos e acabou lhe rendendo uma indicação para treinar jiu-jitsu com Márcio Pontes, primeiro treinador de José Aldo, lutador brasileiro de MMA, duas vezes campeão da categoria peso-pena do UFC e o último Campeão Peso-Pena do extinto World Extreme Cagefighting. "Na primeira vez eu já me apaixonei pela luta", relata Alex. 

    De lá para cá ele só acumula vitórias. "Quando eu comecei, não tinha parajiu-jitsu. Sempre consegui lugar lutando de igual para igual. Hoje eu participo dos dois, mas gosto mesmo é de lutar de igual para igual. Eu gosto do show, de não me intimidar para ninguém", compartilha. 

    Drama familiar 

    Alex precisou desacelerar a rotina de treinos para cuidar da mãe, que se encontra debilitada por conta de um câncer. A mulher que ele chama de mãe, na verdade é sua avó, dona Maria Ferreira, 74, que criou ele o irmão. A doença pegou de surpresa. "Passei três meses e meio na Europa esse ano, em competição. Sai daqui minha mãe-vó estava boa, quando cheguei ela já estava bem doente". 

    Acostumado a passar longos períodos fora de casa, Alex até precisou desistir do Gran Slam em Tóquio para cuidar da matriarca. O atleta também tem dois filhos, Pedro de dez anos e Isadora de dois anos. "Quando eu ganho dinheiro nas competições, já vem com destino certo. Tudo o que faço é para dar condições melhores para os meus filhos". 

    Paixão pelo esportes

    Como a maioria das famílias, os pais do atleta sempre quiseram que ele se dedicasse aos estudos, para passar em um concurso público, mas sua paixão era outra. "Eu sempre tive a gana pelo esporte, não era só pela luta, sempre gostei de estar envolvido com o esporte, quando eu encontrei a luta eu me apaixonei, treinei e me dediquei". 

    O filho, Pedro, ainda não segue os caminhos do pai, mas também gosta dos tatames. "Quando ele vem comigo sempre brinca, ainda não treina, mas ele gosta. Vou deixar tudo no tempo dele", diz Alex.

    Atualmente, o atleta treina atrás de casa, para estar mais presente na família. De manhã, ele faz preparação física e treina jiu-jitsu. Durante a tarde,  ajuda o pai a cuidar do comércio da família. No fim da tarde, reúne os amigos e alunos para treinar mais uma vez. 

    Acredite, o pós-treino favorito deste atleta é refrigerante. Atualmente, Alex pesa 65 quilos e precisa perder nove quilos para competir no Gran Slam de Los Angeles. "Não sei se é o corpo já está acostumado, mas eu sempre consigo chegar no peso ideal. Geralmente, perco sete quilos em duas semanas, claro que com muito treino", compartilha. 

    Quando não está treinando, Alex sempre arranja uma desculpa para sair de casa. "Eu não consigo ficar em casa, não jogo vídeo game, eu sempre saio para jogar bola. Eu não gosto de estar parado, fico agoniado, sou muito acelerado",diz.

    "Se eu tivesse incentivo, a minha história seria mais bonita"

    Atleta versátil, Alex se aventurou no paradesporto por dois anos, representando o Amazonas em competições nacionais de halterofilismo e ciclismo. Ele conta que na época tinha 28 anos. Acabou desistindo do ciclismo por ser um esporte muito caro. Voltou para o jiu-jitsu em 2012. 

    Como a maioria dos atletas amazonenses, Alex Taveira nem sempre pode contar com patrocínio para participar das competições mundo a fora. Ele tem fortes críticas às instituições públicas que deveriam apoiar o esporte. 

    "Os caras tentam contar uma história que a gente vem ouvindo há dez anos. Você gasta com suplementação, gasta tempo. Ser atleta é caro. E, no final, eles vêm dizer que a sua passagem não saiu", desabafa.

    Alex diz ainda que prefere trabalhar para comprar a própria passagem do que depender dos recursos públicos. "Faço minhas correrias, junto grana, procuro fazer meu trabalho e correr atrás do que eu posso. É complicada a vida de atleta".

    Alexa já foi 10 vezes
campeão amazonense de jiu-jitsu
    Alexa já foi 10 vezes campeão amazonense de jiu-jitsu | Foto: Divulgação

    Hoje, os patrocinadores de Alex são a Samel, por meio do diretor do hospital Luís Alberto Nicolau que o ajuda há cinco anos, a Exata Cargo e a Cantina do Papai. "Eles me ajudam 200%, eu agradeço muito hoje eu nem me desespero".

    Mesmo com as dificuldades, Alex já competiu em mais de dez países diferentes, como França, Emirados Árabes, Suécia, Inglaterra e Argentina. "Todos os meus carimbos são pelo esporte. O esporte me proporcionou tudo isso", conta.

    Alex sempre viaja sozinho, sem equipe para dar suporte. Domina o inglês a nível básico. E conta que já chegou a  dormir três dias no aeroporto de Londres, porque não tinha para onde ir. "Dormi no aeroporto e fui direto para competição." No bolso ele tinha apenas 60 libras. "Eu só tinha aquele dinheiro, era ganhar ou ganhar. Fui para cada luta com muito sangue nos olhos".

    Assim que venceu a competição, já depositou o dinheiro da pensão para os filhos. "Estava tudo contra, mas deu tudo certo". 

    'Sonho de ter sua própria academia'

    Alex já atingiu a categoria Master, que é para atletas maiores de 30 anos. Mesmo sendo jovem, ele afirma que seu tempo no esporte está acabando. "Eu quero ver até onde eu tenho cartucho para queimar. Recentemente lutei com uma molecada nova, vi que ainda estou inteiro". 

    O objetivo dele a longo prazo é ter sua própria academia. O projeto está parado por conta dos problemas familiares que está enfrentando. 

    Preconceito

    Alex já enfrentou algumas situações de preconceito por conta da deficiência
    Alex já enfrentou algumas situações de preconceito por conta da deficiência | Foto: Reprodução

    Apesar do bom humor, Alex já enfrentou algumas situações de preconceito por conta da deficiência. Quando era criança, sofria com os olhares das pessoas, mas logo aprendeu a sair dessas situações. "Quando pensavam em bagunçar comigo, eu já bagunçava de volta". 

    Aos 22 anos, quando já era faixa preta e tinha vários títulos no campeonato amazonense, Alex passou por um constrangimento. "Não quiseram deixar eu lutar, disseram que o esporte para mim era basquete em cadeira de rodas. Nesse dia eu fiquei mordido", relata.

    Recentemente, na Suécia, ele também passou por algo parecido. Foi menosprezado por seu adversário, que olhava para ele e ria. "Ele me olhava com cara de 'eu vou quebrar esse aleijado'. Veio para cima de mim todo afoito, achando que ia me ganhar". 

    Alex venceu a disputa. "Ele olhou para o professor dele, dizendo que não podia fazer nada. Ele não sabia que só de faixa preta eu tinha mais de dez anos, o que ele está vivendo agora, eu já passei faz tempo", compartilha. 

    Felizmente, Alex, no geral, conta sempre com o apoio e admiração de seus oponentes. E já até ouviu de algumas pessoas. "Treinei para lutar contigo".

    O paratleta lembra com carinho a história de um americano, Chan Douglas, que treinou com ele. "Ele lutava com todo mundo e quando foi comigo, disse que eu não era normal".  Esse mesmo amigo, sempre diz para Alex que que se ele estivesse nos Estados Unidos estaria ganhando muito dinheiro.

    "Enquanto muitos da cidade não dão valor, o cara vem dos Estados Unidos me dizer que minha história é muito boa para o jiu-jitsu", conclui.  

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