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    Manaus 350 anos


    Vídeo: a história de imigrantes que marcaram a construção de Manaus

    Árabes, judeus, ingleses, alemães, polacos, italianos e portugueses contribuíram para a formação da cidade de Manaus

    Assista a reportagem | Autor: Alex Costa/ TV Em Tempo

    Manaus - O povo brasileiro é bem conhecido por ser uma mistura de vários outros povos. Em Manaus não é diferente, árabes, judeus, ingleses, alemães, polacos, italianos e portugueses contribuíram para a formação da cidade, que ficou conhecida historicamente como a Paris dos Trópicos. 

    Na obra 'A ilusão do fausto', a historiadora Edinea Mascarenhas Dias relata que o primeiro surto de urbanização na cidade ocorreu a partir de 1890, como resultado da economia agrária extrativista-exportadora do látex. Este avanço econômico do século XIX "civiliza índios transformando-os em trabalhadores urbanos, dinamiza comércio, expande a navegação e desenvolve a imigração". 

    Neste contexto, o elemento norteador da administração municipal passou a ser a sociedade, a cultura e o mundo de trabalho europeus. 

    Conforme explica o historiador Abrahim Baze, por volta de 1669, Manaus teve árabes, judeus, ingleses, alemães, polacos e italianos, mas somente os povos da Arabia, de origem judia e de Portugal permaneceram no Amazonas e na Amazônia de forma mais consistente. 

    Portugueses

    Os portugueses que imigraram para cá viviam em vilas no interior de Portugal. Suas famílias tinham números de 10, 12, 15 filhos, conforme explica Baze. Portugal estava vivendo uma crise, assim as famílias escolhiam aqueles mais jovens e os enviavam para o mundo inteiro. Hoje, em qualquer lugar do mundo é possível encontrar portugueses.

    Na Amazônia, o ciclo da borracha era um atrativo, uma vez que dominávamos a exportação deste que foi um dos principais ciclos econômicos da região. Quando os portugueses vieram, acabaram trabalhando como comerciantes em bares, restaurantes, mercarias, tabernas e diversas outras casas comerciais, na primeira metade do século XX. Aproximadamente 90% dos pequenos comerciantes eram portugueses.

    "Eu costumo dizer que eles deram os ossos para a Amazônia", diz Abrahim. O historiador convive há 23 anos com a comunidade portuguesa, tem 33 livros publicados e organizou seis museus, entre eles o Museu Luso e Museu da Beneficente Portuguesa em Manaus. 

    Os portugueses deixaram várias contribuições econômicas, culturais e sociais para a cidade de Manaus e para o interior. Aliás, a fundação do município de Itacoatiara teve forte influência portuguesa.  

    Hospital Português Beneficente do Amazonas, localizado no Centro Histórico da capital amazonense
    Hospital Português Beneficente do Amazonas, localizado no Centro Histórico da capital amazonense | Foto: Robervaldo Rocha/CMM

    O Hospital Português Beneficente é uma das obras que nos contam o tamanho da relevância deste povo na nossa sociedade. O local resiste há mais de um século com toda sua imponência e beleza arquitetônica, na Av. Joaquim Nabuco, Centro de Manaus.

    Inaugurado em 17 de dezembro de 1893, na antiga estrada Corrêa de Miranda, atual Av. Joaquim Nabuco, o prédio da Real e Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente do Amazonas  foi resultado da união de mais de 70 lusitanos. Quem lançou a pedra fundamental do hospital, em agosto de 1874, foi o português José Teixeira de Souza. 

    Miscigenação

    "Nós somos descendentes do indígena e do europeu. Então houve a miscigenação e nós somos o resultado disso", relata  Abrahim. Ele também cita  que a nossa cultura atual é muito diversificada, tendo influência de muitas outras nações. 

    O Bairro dos Remédios, um dos bairros da antiga Manaus, hoje inexistente, já que ele e outros bairro próximos tornaram-se o Centro, tinha 90% de seus moradores árabes. Inclusive a santa dos remédios é Nossa Senhora do Líbano. Apesar da rica contribuição desses povos, a riqueza dos portugueses é a única que tem um museu em Manaus. 

    Imigração japonesa

    De acordo com a Associação Nipo-Brasileira da Amazônia Ocidental (Nippaku Manaus), a imigração japonesa em Manaus começou em 1958, na Colônia Efigênio de Sales. Antes dela, já havia acontecido outros processos migratórios deste povo na Amazônia:

    1929: primeira imigração japonesa na Amazônia Ocidental, no município de Maués.

    1931: segunda imigração japonesa na Amazônia, em Parintins.

    1953: retomada de imigração pós-guerra, na Colônia Bela Vista, em Manacapuru.

    1954: Colônia Treze de Setembro, em Porto Velho, Rondônia.

    1955: Colônia Taiano e Colônia Mirandinha, em Roraima. 

    Sociedade Japonesa do Amazonas, grupo de Maués.
    Sociedade Japonesa do Amazonas, grupo de Maués. | Foto: Reprodução Web

    Os imigrantes do período anterior à Segunda Guerra Mundial, como de Maués (1929) e Parintins (1931), vinham por dois grandes motivos. O primeiro era o problema de superpopulação do país. O segundo, o fato de que Japão necessitava de muitos defensores da pátria, soldados sujeitos a serem convocados para a guerra a qualquer momento.

    Assim, as famílias que tinham condições de oferecer estudos aos seus filhos, como é o caso dos imigrantes de Parintins, chamados de Koutakuseis, para não serem convocados à batalha de guerra resolveram estudar e desbravar um novo horizonte na Amazônia. Na época, os que não eram arrimo (provedores) de família eram convocados a ser soldados. Uma curiosidade é que quase todos os Koutakuseis não eram filhos primogênitos. 

    Já os imigrantes pós-guerra tinham como principal motivação a superpopulação do Japão. Depois da guerra houve um retorno em massa de pessoas que estavam fora do país, especialmente soldados. Tendo isto em vista, o governo do japonês incentivava de forma intensiva a imigração.

    Sociedade Japonesa do Amazonas, Colônia Efigênio de Sales.
    Sociedade Japonesa do Amazonas, Colônia Efigênio de Sales. | Foto: Reprodução Web

    Antes da chegada dos japoneses no Estado do Amazonas, após o termino do ciclo da borracha, a população vivia praticamente de extrativismo. O Brasil, nesta época, era o principal exportador de café, cuja embalagem era sacaria de fibra de juta, importada da Índia.

    Com a aclimatação desta juta indiana pelos japonesas, o Brasil se tornou autossuficiente e deixou de importar da Índia. Esta foi uma das principais contribuições dos japoneses para o Amazonas neste período.

    Após a guerra, de 1953 a 1958, os imigrantes japoneses contribuíram na produção hortifrutigranjeira para abastecer principalmente a capital, Manaus, fato que acontece até hoje.  

    Em 1967, o governo federal implanta a Zona Franca de Manaus, onde os produtos japoneses importados contribuíram significativamente no desenvolvimento econômico regional no que se refere a setor comercial.

    Polo Industrial de Manaus.
    Polo Industrial de Manaus. | Foto: Reprodução Web

    Em 1973, os japoneses também participaram da implantação do modelo do Polo Industrial de Manaus (PIM). Com a produção de eletroeletrônicos e de duas rodas, proporcionaram um grande numero de empregos diretos e indiretos aos habitantes desta região. Para se ter uma ideia, em 1958 a população de Manaus era em torno de 150 mil pessoas e hoje, 60 anos depois, ultrapassam de 2 milhões de habitantes.

    Não se sabe ao certo quantas pessoas compõem atualmente a comunidade japonesa em Manaus.  O fluxo e o refluxo de pessoas à procura de trabalho é intenso. Estima-se que seja uma média de 15 mil pessoas.

    Zona Franca

    O historiador Abrahim Baze conta que por volta de 1967, no ciclo da Zona Franca, houve outro boom populacional e migratório, principalmente de chineses, japoneses e pessoas de outros estados do país, como paulistas e cariocas. 

    À época, o comércio foi muito pujante e os produtos comerciais eram vendidos intensamente no comércio local.  Neste período, em que as compras valiam a pena, houve uma perda muito grande do patrimônio histórico de Manaus. Havia uma convivência pacífica entre os moradores e a vida comercial da cidade.

    Trabalho industrial na Zona Franca de Manaus.
    Trabalho industrial na Zona Franca de Manaus. | Foto: Arquivo Agência O Globo

    No entanto, com a chegada da Zona Franca, estes imigrantes passaram a investir e comprar as casas do grande centro de Manaus, fazendo com que elas perdessem sua característica histórica. As janelas se transformaram em vitrines e as fachadas de azulejos começaram a ser quebradas. Então, o patrimônio histórico começa a perder as característica daquele período importante da borracha. 

    "Nos arredores do Teatro Amazonas ainda é possível ver algumas edificações com características históricas, ainda assim Manaus perdeu muito", conta o historiador. 

    Com a indústria criando empregos, houve ainda a migração de pessoas do interior do Amazonas e de outras cidade da Região Norte, incluindo muitos paraenses. A chegada em grande volume destas pessoas causou uma expansão territorial desordenada em Manaus, contribuindo com o surgimento de invasões e bairros. 

    A família Benchimol

    Os judeus também foram muito importantes para a construção da cidade de Manaus. Uma das famílias imigrantes de judeus que fizeram história no comércio local foram os Benchimol. Até hoje, o grupo comercial que pertence a eles domina o setor de lojas de departamento e eletrodomésticos. 

    Israel Isaac Benchimol.
    Israel Isaac Benchimol. | Foto: Arquivo Família Benchimol

    De acordo com os arquivos históricos e pessoais da família Benchimol, Israel Isaac Benchimol nasceu 1860, em Tânger no Marrocos. Ele e o irmão, Abraão, vieram para a Amazônia por volta de 1879, tentando achar melhor forma de vida, longe dos doenças, pobreza e forte perseguição aos judeus que acontecia no país. 

    A atividade empreendedora de Abraão na Região Norte incluía sua participação na diretoria da Companhia  Brasileira de Navegação para a Europa. Esta era composta por "cavalheiros e capitalistas respeitáveis". 

    No Brasil, Israel casa-se com uma mulher conhecida como Rubida, em 1886. Dois anos depois, nasce em Aveiro, no Rio Tapajós, o filho do casal, que tem o nome semelhante ao do pai, Isaac Israel Benchimol. Após oito meses de seu nascimento, o pai morre e a família se muda para Santarém, no Pará. Onde Rubida casa-se pela segunda vez, com o comerciante José Benoliel. 

    Passando por momentos difíceis, a mãe o envia para estudar no Morrocos, onde fica dos 9 anos aos 15 anos de idade. Voltou para o Brasil quando a mãe estava doente. Um anos após sua volta, perde a mãe. 

    Em 1909, aos 21 anos. Isaac vai para o Acre, onde exerce várias funções nos seringais. Como era reconhecido por ser íntegro e trabalhador, também atuou como juiz de paz. Ele então casa-se com sua prima, Sol, e vem para Manaus. 

    Sol era muito querida na comunidade judia manauara. Na época, o perigo vinha da gripe espanhola, que vitimava grande número de pessoas. Certo dia, recolhendo as roupas do varal e ignorando completamente os avisos de que não deveria estar ali, Sol adoeceu com a forte gripe e morreu. 

    Isaac mergulhou no trabalho e decide voltar a viver nos seringais. Aos 31 anos conhece sua segunda esposa, Nina Siqueira, natural de Tefé. Ele passa a empreender nos seringais, onde vivem por 11 anos consecutivos, em contato esporádico com a civilização, mantendo os costumes judaicos mesmo no meio da floresta. 

    Isaac Israel Benchimol, Nina Siqueira e família
    Isaac Israel Benchimol, Nina Siqueira e família | Foto: Arquivo Família Benchimol

    Quando o valor da borracha caiu. A esposa passa a costurar para os seringueiros, até conseguir dinheiro para sair dali e ir para Belém. Na capital do Pará, Isaac volta a estudar. Depois deste período a família retorna a Manaus, onde Isaac exerce papel importante como presidente do Comitê Israelita do Amazonas. 

    No dia 13 de agosto de 1942 os irmãos Samuel, Israel e Saul Benchimol fundam a Bemol, como uma firma de comercio de representações, produtos farmacêuticos e outras utilidades. 

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    Assista a reportagem | Autor: Alex Costa/ TV Em Tempo
     


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