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    Desigualdade social mostra a face em tempos de pandemia

    Chegada da pandemia da Covid-19 evidenciou problemas estruturais e de acesso à saúde em Manaus

    Manaus 29.05.2020. Contraste social em Manaus. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

    Manaus – Segundo o professor de sociologia, kefferson Correia, a cidade de Manaus sofreu uma urbanização acelerada e, com a falta de políticas públicas em relação ao problema habitacional, hoje conta com um quadro de segregação e contraste social entre seus bairros. A chegada da pandemia da Covid-19 evidenciou problemas estruturais e de acesso à saúde.

    Maylla Vasconcelos, 24 anos, está desempregada e mora na comunidade São Sebastião, bairro Petrópolis, Zona Sul de Manaus. Ela conta que na área onde reside existem duas casas de saúde e que, mesmo antes da pandemia, o atendimento já era precário. “Era muito difícil conseguir consultas e, mesmo quando a situação era emergencial, os moradores tinham que esperar. Com a pandemia, isso se intensificou”, relata.

    A jovem revela ainda que a Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro é muito distante e que os agentes de saúde nunca visitam as casas da região. Segundo Maylla, para chegar aos locais citados também é complicado, pois há somente uma linha de ônibus disponível. “Muita gente vai caminhando até o Aleixo, mas é uma caminhada de cerca de 20 minutos, correndo o perigo de ser vítima de assalto, porque o bairro é perigoso”, ressalta.

    A pavimentação das ruas é uma das maiores reclamações dos moradores
    A pavimentação das ruas é uma das maiores reclamações dos moradores | Foto: Lucas Silva

    De acordo com Maylla, as ruas não têm infraestrutura, são cheias de buracos e os agentes públicos não se preocupam com a pavimentação. “Já teve uma época que nem o ônibus descia mais aqui, porque abriu um buraco enorme na rua. Só vieram consertar quando a situação foi noticiada. Com a pandemia, continuamos esquecidos”, declara.

    Mediadora escolar, Juliane dos Santos, 21 anos, mora no bairro Nova Vitória, Zona Leste de Manaus. A jovem confessa que o acesso à saúde no local é de péssima qualidade e difícil para os moradores. “A UBS é próxima, mas temos que ficar na fila de madrugada para poder conseguir ficha para uma consulta. Em tempos de pandemia isso é muito complicado”, alega.

    Bairro Nova Vitória, Zona Leste de Manaus
    Bairro Nova Vitória, Zona Leste de Manaus | Foto: Lucas Silva

    Ela também reclama da falta de infraestrutura no bairro e relata o mesmo problema com a pavimentação das ruas. Além de denunciar a falta de supermercados por perto. “Os vizinhos também se queixam bastante. Temos que andar de ônibus e seria mais fácil fazer as compras do mês se tivéssemos acesso fácil e rápido aos supermercados”, desabafa.

    Juliane dos Santos em seu bairro Nova Vitória
    Juliane dos Santos em seu bairro Nova Vitória | Foto: Lucas Silva

    Juliane dos Santos e sua família
    Juliane dos Santos e sua família | Foto: Lucas Silva

    A psicóloga Taís Monteiro, 25 anos, morava na Cidade Nova, Zona Norte de Manaus, mas hoje reside no bairro Ponta Negra, Zona Oeste e compartilha as diferenças que pode observar ao se mudar. “De cara já pude perceber a diferença na pavimentação. Aqui as ruas são bem asfaltadas e largas. Quando aparece algum buraco, rapidamente os responsáveis já se preocupam em tapar”, revela.

    A questão da segurança também chama atenção de Taís. A Praia da Ponta Negra é considerada um dos pontos turísticos de Manaus e a preocupação em manter o bairro bem estruturado e seguro é de interesse público. Segundo ela, é um bairro que recebe mais importância.

    Taís afirma que a diferença na infraestrutura dos bairros é imensa
    Taís afirma que a diferença na infraestrutura dos bairros é imensa | Foto: Lucas Silva

    Alex Cordeiro, 40 anos, é gerente comercial e morador do bairro Aleixo, Zona Centro-Sul da capital amazonense. Ele afirma que o acesso à saúde em sua casa é feito por meio dos planos de saúde, na rede privada, mas que existe uma UBS próximo à região.

    Bairro Ponta Negra, Zona Oeste de Manaus
    Bairro Ponta Negra, Zona Oeste de Manaus | Foto: Lucas Silva

    O gerente explica que, no final de março, ficou mal de saúde, mas não se sentiu seguro ou confortável para ir até a UBS. “Preferi manter o isolamento, porque sabia que o sistema de saúde público estava indo mal. Não quis enfrentar nem o plano de saúde, pois não queria correr o risco de trazer doenças ou até o próprio vírus para dentro da minha casa e infectar minha família”, desabafa.

    Segundo Alex, mesmo sendo pavimentadas de “qualquer jeito”, as ruas ainda são melhores que em muitos bairros. “Muitos acabam recebendo um serviço de qualquer jeito porque o poder público está mais preocupado com os benefícios próprios e depois com a população”, salienta.

    Desigualdade Social

    O Professor de Sociologia e Mestre em Ciências da Educação, Kefferson Correia, apresenta o contexto histórico que fez Manaus chegar aos problemas de desigualdade social apresentada nos bairros da cidade atualmente e fala sobre a falta de políticas públicas para solucionar os problemas.

    O contraste entre bairros privilegiados e bairros esquecidos pelo poder público é visível em Manaus
    O contraste entre bairros privilegiados e bairros esquecidos pelo poder público é visível em Manaus | Foto: Lucas Silva

    “O marco histórico de transformação em Manaus ocorreu em 1967, quando foi implantado o modelo econômico Zona Franca de Manaus (ZFM) no âmbito da política regional de integração nacional dos governos militares. Essa nova racionalidade capitalista apresentou mudanças trazidas pelo processo de industrialização. A estrutura da cidade modifica-se e o espaço urbano ganha uma outra visibilidade com o crescimento populacional decorrente do processo migratório que ocorre com a formação de inúmeros bairros que passam a constituir a periferia da cidade”, conta Kefferson.

    O professor vai mais adiante e afirma que a urbanização acelerada de Manaus, nas últimas três décadas, deu lugar à várias ocupações irregulares e trouxe um quadro crescente de desigualdade e discriminação social. “O acesso aos direitos básicos é privilégio de poucos e os recursos naturais são cada vez mais dizimados”, declara.

    A falta de políticas públicas gera cada vez mais desigualdades
    A falta de políticas públicas gera cada vez mais desigualdades | Foto: Lucas Silva

    Kefferson explica que a questão central reside na destinação dos recursos públicos que, a partir da condução atual na implementação das políticas públicas, promove a concentração da riqueza e amplia as desigualdades sociais, sendo as maiores vítimas os segmentos mais pauperizados das classes subalternas.

    “É necessário estratégias do governo mais eficazes. E um olhar diferenciado para a população de baixa renda, pois é a mais vulnerável em relação à Covid-19. Em Manaus ainda atravessamos o caos da saúde pública, que foi herança de desgovernos passados”, finaliza.

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