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    Covid-19


    Algo não cheira bem

    O olfato garante parte de nossa sobrevivência. Por meio dele, evitamos o pântano pútrido e suas doenças associadas; evitamos os dejetos e as fezes porque sabemos que perto deles há agentes infecciosos. Com a pandemia, parte dos pacientes de COVID-19 entraram em pânico quando pararam de sentir o cheiro das coisas

    Escrito por Marcus Lacerda no dia 15 de janeiro de 2021 - 18:13

         

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        O olfato é um dos sentidos mais misteriosos da espécie humana. Não é o mais apurado deles, em comparação com outros mamíferos. Cães farejadores podem detectar quantidades muito pequenas de drogas, em aeroportos, pessoas desaparecidas, ou pacientes infectados pelo parasito da malária. Camundongos podem ser facilmente treinados para reconhecer o escarro de pessoas com tuberculose.

        Mas, apesar de olfato menos aguçado, os narizes da humanidade guardam suas maiores memórias. É muito difícil explicar ou escrever sobre um cheiro, apesar de que, quando sentimos um aroma sentido na infância, podemos sentir o exato momento em que nossas vidas foram marcadas pela emoção. São assim os alimentos que comemos quando crianças e que nos lembram imediatamente nossos pais. Quem não se lembra do prato que garantiu a terceira estrela Michelin ao restaurante comandado por Rémy, o famoso ratinho cozinheiro francês dos estúdios Pixar? Um singelo prato de ratatuille (legumes refogados e bem temperados) trouxe à memória do crítico gastronômico sua infância há muito esquecida.

        Nenhuma obra literária poderá superar a genialidade do alemão Patrick Süskind, que nos seduz com a história de Grenouille, o jovem francês sem cheiro próprio, que extraiu o cheiro de 26 mulheres que assassinou, na ambição de produzir um perfume perfeito. Nada mais envolvente do que ler sobre as técnicas utilizadas por Grenouille e sua refinada obsessão.

        O olfato garante parte de nossa sobrevivência. Por meio dele, evitamos o pântano pútrido e suas doenças associadas; evitamos o cheiro de um cadáver na intenção de fugir do que o matou. Evitamos os dejetos e as fezes porque sabemos que perto deles há agentes infecciosos. Em fração de segundos, nossas narinas distinguem o bom do mau vinho, a comida fresca da estragada. Até certo ponto, nosso olfato está diretamente ligado ao paladar. A língua só pode reconhecer o que é azedo, amargo, doce ou salgado, de forma bem rústica. As sutilezas do alimento precisam passar da boca até o nariz. Meu avô, após um acidente vascular cerebral, perdeu para sempre o olfato. Foi quando aprendi o que significava a palavra anosmia. Foi privado dos sabores de todos os quitutes que comia, até o fim da vida. Sua memória foi se perdendo aos poucos. Sem cheiro, ele não podia mais se recordar da profundidade do que havia vivido. Meu filho mais velho, em contraposição, reconhece todos os temperos, em uma pequena garfada. Em função disso, é o nosso virtuose na cozinha. Pelo olfato, homens no Oriente Médio escolhem suas esposas. Casam-se com as que cheiram bem.

          José Saramago nos contou em seu livro ‘Ensaio sobre a cegueira’ sobre a pandemia imaginária de uma doença que deixava a todos sem visão. O ser humano se revelou cruel e agressivo. A cegueira apenas despertou na humanidade seu instinto mais primitivo de autodefesa. Décadas depois, como uma premonição, vimos ao vivo uma pandemia de anosmia, a maior parte dos pacientes de COVID-19 entraram em pânico quando pararam de sentir o cheiro das coisas. Isso porque o vírus, como outros respiratórios, promovem indiretamente uma inflamação das células nervosas no revestimento nasal interior. Ainda sem saber muito bem se a frequência do fenômeno é maior na COVID-19, ou se isso pode deixar sequelas de longo prazo, pacientes de todo o mundo passaram a se autodiagnosticar com a doença pandêmica quando perderam o precioso sentido. Quatro entre cinco pessoas doentes relatam alguma alteração no olfato. São, portanto, milhões de pessoas, de todas as raças e culturas, que temporariamente perderam parte de sua conexão com o mundo. Restou-lhes o toque (atualmente proibido), a visão, a fala e um paladar limitado.

          Além do medo iminente da morte, doentes sem rumo vagueiam pelas cidades vazias, buscando suas memórias mais antigas em flores perfumadas, na terra molhada pelas primeiras chuvas da primavera, nas lufadas de vento que sopram do nascente, ou no terroir das mulheres que amaram. O desespero em não poder cheirar causa aflição e medo, porque alija nosso passado, nossas memórias. E nessa peça que nos prega a vida, vamos aprendendo a desenvolver os demais sentidos. Os anósmicos, ou desmunidos de narizes, ouvem mais, enxergam melhor, como um cego que anda pela cidade e reconhece cada desnível da calçada. Não há ainda estudos científicos confiáveis, mas tenho percebido entre meus pacientes, que eles desenvolveram aquele tão comentado sexto sentido, e começaram a perceber o que antes não conseguiam: que algo na humanidade não cheirava bem.

    Marcus Lacerda

    Médico infectologista e pesquisador

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