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    remédios amazônicos


    Mito ou verdade? No AM, banha de cobra é usada como remédio natural

    Tratamento da hérnia de disco, infeção urinária, reumatismo e cicatrização de ferimentos são tratados com a banha de cobra ou banha da Sucurijú por amazonenses. Conhecimento popular passado de geração em geração expõe a espécie da região amazônica ao risco

    A doméstica Áurea Palheta usa constantemente a pomada da banha de cobra
    A doméstica Áurea Palheta usa constantemente a pomada da banha de cobra | Foto: Ione Moreno

    Manaus - Entre a grande variedade de remédios medicinais extraídos da Amazônia, uma das mais conhecidas é a banha de cobra, ou banha da Sucurijú (espécie de cobra encontrada na região amazônica). O óleo medicinal é utilizado há gerações para o tratamento da hérnia de disco, infeção urinária, reumatismo e cicatrização de ferimentos. Mas será que o produto tem eficácia?

    O Em Tempo levou este questionamento a uma especialista e entrevistou pessoas que têm experiências com o produto encontrado no tradicional Mercado Adolpho Lisboa, no Centro de Manaus, e em outras feiras do Amazonas.

    A microempreendedora Paula Costa, 34, conta que sim. Ela afirma que teve uma recuperação imediata depois de tomar o comprimido da banha de cobra. "Após a minha cesária, eu tomei os comprimidos e o efeito foi muito rápido. A cirurgia cicatrizou em pouco tempo e eu não tive dores”, destaca.

    A doméstica Áurea Palheta usa, constantemente, a pomada da banha de cobra para a cicatrização de feridas.

    “Quando eu aplico a pomada, a cicatrização é rápida. Fui acostumada a usar estes produtos naturais da Amazônia por indicação dos meus avós e sempre me senti bem”, diz.

    A banha é retirada da Sucurijú, termo utilizado pelos ribeirinhos para a Sucuri, maior cobra da Amazônia. O procedimento para retirar o óleo, tido como "milagroso" principalmente pelos indígenas, é recriminado por ambientalistas que estudam os impactos na continuação da espécie.

    "Mata-se a serpente, põe-se para ferver a banha e, em seguida, retira-se o óleo. A tradição aponta o uso da banha como cicatrizante e reconstrutor dos tecidos ósseos e musculares", disse uma vendedora do óleo no Centro de Manaus, que preferiu não ser identificada.

    Os preços da banha de cobra variam entre R$ 5 a R$ 25
    Os preços da banha de cobra variam entre R$ 5 a R$ 25 | Foto: Ione Moreno

    Onde encontrar

    Em Manaus, a banha de cobra, seja em cápsula, pomada, gel ou óleo, pode ser encontrada facilmente no Mercado Adolpho Lisboa, situado na Rua dos Barés, no Centro. Os preços variam entre R$ 5 a R$ 25, dependendo de como o produto é processado.

    A proprietária da Bio Ervas, Bia Alves, conta que há mais de 20 anos vende produtos medicinais e, durante esse tempo, a banha de cobra sempre foi um dos mais requisitados na sua banca.

    “Em média, eu recebo mais de 20 clientes procurando pela banha de cobra. Elas voltam querendo comprar outras vezes, afirmando que o produto fez efeito e que foram curadas através dele”, explica.

    A equipe do Portal Em Tempo também encontrou o produto em quatro bancas diferentes instaladas no Mercado Adolpho Lisboa. O comerciante Sabá Mendonça possui uma dessas bancas e conta que o gel da banha é o mais procurado.

    “O gel tem o efeito cicatrizante e até mesmo relaxante muscular. Muitos turistas procuram também por curiosidade”, relatou.

    Veja reportagem no Mercado municipal de Manaus: 

    Veja relatos de amazonenses que usam a banha de cobra | Autor: Ione Moreno


    Mito ou verdade?

    Mesmo com os diversos depoimentos, o efeito da banha é considerado pela sociedade científica como parte da crença popular. A dermatologista Francinaire Alves diz que não tem conhecimento sobre o efeito da banha de cobra. Ao Em Tempo, a profissional informou que não indica o uso do produto.

    “É necessário ter uma pesquisa científica sobre o produto para saber a eficácia da banha. Como não comprovação, eu não indico o uso aos clientes”.

    Banha de cobra é vendida em óleo, gel e pomada
    Banha de cobra é vendida em óleo, gel e pomada | Foto: Ione Moreno


    A mesma opinião é acompanhada pela dermatologista Patricia Akel.

    "Nosso arsenal de remédios dentro da dermatologia  é tão grande que não indicamos usar a banha de cobra. Existe a crença popular sobre o efeito do produto, mas não faz parte da nossa prescrição”.

    Para o uso da banha de cobra ser oficializado é necessário ter aprovação dos órgãos responsáveis, como do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam). Sem autorização desses órgãos, a revenda deste tipo produto é proibida, alertam as especialistas.

    O biólogo do Ipaam, Marcelo Garcia, explica que existem alguns critérios para a concessão da autorização de venda de produtos da medicina natural.

    “É preciso ter uma pesquisa científica comprovando a eficácia de qualquer produto natural, como é o caso da banha de cobra. Dentro do âmbito da Lei Ambiental, que prevê o manejo da Sucuri em vida livre na Amazônia, teria que haver uma autorização para abater essas cobras e tirar a banha delas. Após comprovação da eficácia, inicia-se um novo processo. É preciso ter um plano, uma pesquisa que mostre as áreas onde poderiam fazer o abate das cobras, para solicitar uma autorização do Ibama”, explica.

    No Mercado Adolpho Lisboa é fácil encontrar a banha de cobra à venda
    No Mercado Adolpho Lisboa é fácil encontrar a banha de cobra à venda | Foto: Ione Moreno


    De acordo com o biólogo, outra forma de obter essa autorização é coletar algumas sucuris para reprodução em cativeiros. Em seguida, o interessado faria a criação das cobras em escala comercial para poder abater e retirar a banha. Nesse caso, a autorização seria com o Ipaam.

    Caso haja a produção e comercialização deste produto sem a autorização dos órgãos responsáveis, Marcelo Garcia informou que o ato é considerado crime ambiental com aplicação de pena e multa.

    Edição: Bruna Souza

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