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    Saúde


    Doação de órgãos: entenda a importância do gesto que pode salvar vidas

    No Amazonas, 350 pessoas aguardam por um transplante renal e 80 por um fígado. Ainda dificultada por familiares, a doação de órgãos pode melhorar a rotina de quem precisa

    Manaus – “A mensagem mais importante sobre a doação de órgãos é que esse ato é um gesto de amor. Imagina perder um familiar que você ama muito, mas esse amor pode continuar existindo em outras pessoas, basta avisar sua família e conscientizá-la. Alguém poderá receber esse presente e enxergar pelos seus olhos, sentir pelo seu coração e respirar pelos seus pulmões", este é o depoimento do Thiago Coelho, que, em 2018, ganhou uma 'segunda vida' graças a doação de órgão feita pela sua irmã.

    No Brasil, a doação de órgãos ainda é alvo de muita desinformação. Segundo dados da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados em março deste ano, a taxa de rejeição das famílias em doar os órgãos de um falecido é de 43%, uma das mais altas do mundo. Embora o Brasil esteja abaixo da meta de doação de pessoas por milhão, o país continua entre os dez que mais realizam transplantes no mundo. 

    Um gesto de amor que pode salvar muitas vidas, a doação de órgãos pode vir de um desconhecido ou de um familiar. Este é o caso da Vânia Barroso, de 52 anos, que há dez anos teve um rim doado pelo seu irmão, Osvaldo Barroso. 

    Vânia Barroso há dez anos recebeu um rim de seu irmão Osvaldo
    Vânia Barroso há dez anos recebeu um rim de seu irmão Osvaldo | Foto: Arquivo Pessoal

    “Eu nunca tinha ouvido falar de hemodiálise e nem de transplante quando soube do diagnóstico de paralisia no rim. Eu já estava muito inchada e me recusava a fazer a hemodiálise, porque ela é muito dolorosa e mata aos poucos. Quando eu descobri que o transplante de rim poderia me proporcionar uma qualidade de vida, comecei a chorar porque precisaria de um transplante. O meu irmão me viu e falou na hora que me daria o dele. Órgão é uma coisa que a gente não pede. Graças ao gesto dele, ganhei uma nova chance e hoje vivo perfeitamente e ele também”, afirma. 

    Vânia comenta que a desinformação gera meda, mas a realidade é quem doa em vida não sofre nenhuma secuela
    Vânia comenta que a desinformação gera meda, mas a realidade é quem doa em vida não sofre nenhuma secuela | Foto: Leonardo Mota

    Segundo Vânia, a falta de informação e conscientização sobre o gesto, faz com que familiares tenham medo de doar. A doação de órgãos pode ser de dois tipos: em vida e após a morte. “Eu trabalho em uma escola e as crianças sempre me perguntam como meu irmão está vivo, se ele está bem, por exemplo. A falta de informação gera o medo. Medo de ficar doente, de ter complicação, mas a vida segue normal. Eu conheço colegas que fazem hemodiálise e tem seis irmãos, mas nenhum quer doar por medo”.

    "O amor de família falou mais alto"

    O amor de família fez com que a advogada Elisangela Ramos doasse seu rim para seu irmão mais novo
    O amor de família fez com que a advogada Elisangela Ramos doasse seu rim para seu irmão mais novo | Foto: Leonardo Mota

    Todos que tem uma família sabem das dificuldades que cada membro enfrenta. Quando os problemas passam, grandes demonstrações de amor florescem. Este é o caso da advogada Elisangela Ramos, 38 anos, que em 2018 dou um de seus rins para o irmão mais novo, Thiago Coelho, 28 anos.

    "Toda a família acompanhava o sofrimento dele desde de 2012. Toda semana quando ele ia fazer as sessões de hemodiálise, nós víamos que ele voltava muito mal. Nas famílias, é muito difícil que os membros tenham essa coragem de doar parte de si, até para um parente de sangue. O amor de família falou mais alto e eu fiz isso para ele ficar bem e não sofrer mais", relatou Elisangela emocionada.

    Há anos sofrendo com Insuficiência renal crônica, Thiago conta que ele tentou receber a doação de outras pessoas, mas os exames mostraram que os outros candidatos não eram compatíveis. Em 2018, ele realizou o procedimento no Hospital do Rim, em São Paulo.

    Hoje, Thiago ganhou uma nova vida graças ao gesto da sua irmã
    Hoje, Thiago ganhou uma nova vida graças ao gesto da sua irmã | Foto: Leonardo Mota

    "Eu já tinha desistido de procurar um doador, quando a minha irmã falou que doaria uma parte dela para mim, nem estava esperando. Esse foi o maior gesto de amor que ela me deu, porque doar órgão é doar vida. Se uma pessoa saudável perde um dia de cada vez, eu perdia dez em um só, porque a hemodiálise vai destruindo você. Quando ela me doou o rim, ela parou esse relógio e ele voltou a contar normalmente. A demonstração dela foi em vida, mas outras pessoas podem fazer isso após a morte", comentou Thiago.  

    Familiares precisam autorizar a doação

    No Brasil, a efetivação da doação só ocorre quando há a autorização da família, conforme estabelece a Lei 10.211/2001. Portanto, a orientação e aviso aos familiares é fundamental para que o desejo do doador seja atendido. 

    Dados do Sistema Nacional de Transplantes (SNT) entre 2013 e 2017 mostram que, no Amazonas, o número de famílias que se recusavam a permitir a doação de órgãos de parentes chegou a atingir 57% em 2015. Este número veio diminuindo progressivamente ao longo dos últimos dois anos. Em 2016, o percentual de famílias que não consentiam com o transplante diminuiu 13%, já em 2017 a taxa de rejeição de familiares atingiu 56%.

    Quem pode e não pode ser doador?

    Existem dois tipos de doador: o doador vivo e o doador falecido. Enquanto a pessoa estiver viva, ela pode doar um dos rins, parte do fígado, parte da medula óssea ou parte do pulmão. Já o doador falecido, aquele que teve morte cerebral, pode doar os mesmos órgãos do doador vivo, incluindo o coração e o pâncreas.

    Entretanto, não basta somente a vontade de ajudar, pois os procedimentos são complexos. De um lado, a necessidade de se ter a compatibilidade dos doadores vivos no processo de doação e, do outro, a difícil tarefa da instituição pública de auxiliar a família, que acabou de perder um ente querido, para concordar com a doação. Tudo isso em pouquíssimo tempo.

    350 pessoas aguardam por transplante renal no AM

    No Amazonas,  a realização de transplantes de rins entre doadores vivos começou em 2002, mas em 2017 teve o procedimento interrompido. Até aquele ano, foram realizados 400 transplantes. Hoje, somente o transplante de córnea é realizado pela rede estadual de saúde. Em 2018, o Banco de Olhos do Amazonas conseguiu zerar a fila de espera do transplante, realizando mais de 2 mil transplantes ao longo de 16 anos.

    Segundo a Secretaria de Estado de Saúde do Amazonas (Susam), estima-se que 350 pessoas aguardam por transplante renal no Amazonas e 80 pessoas por um fígado. Com a não realização de transplantes de órgãos sólidos, os pacientes são encaminhados para outros Estados por meio do Tratamento Fora de Domicílio (TFD).

    O Brasil figura entre os dez países do mundo que mais realizam transplantes, em números absolutos, é o 2º maior transplantador do mundo, atrás apenas dos EUA. O país é referência na área e possui o maior sistema público de transplantes. Atualmente, cerca de 96% dos procedimentos de todo o País são financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). No Amazonas, somente o Hospital Santa Júlia é credenciado para receber o transplante de órgãos, mas está com os procedimentos parados desde 2018. 

    Transplantes devem voltar no segundo semestre

    Em maio de 2019, o Governo do Amazonas e o Ministério da Saúde assinaram um termo de adesão para implantação do Programa de Transplante de Rim no Estado. Segundo o secretário de Estado de Saúde (Susam), Rodrigo Tobias, os procedimentos de transplantes de rim seriam retomados a partir do segundo semestre de 2019, no Hospital e Pronto-Socorro da Zona Norte (HPS Zona Norte) Delphina Aziz. O termo inclui, inicialmente,  a tutoria (capacitação) dos profissionais de saúde. 

    De acordo com a Susam, a previsão é que ainda no segundo semestre desse ano comece a funcionar na unidade da Zona Norte o serviço ambulatorial pré-transplante para acompanhamento dos pacientes que aguardam o procedimento e pós transplante para pacientes que já fizeram. As cirurgias propriamente ditas devem acontecer a partir do ano que vem.


    Ajuda também para a ciência

    Além de a doação de órgãos e tecidos poder salvar ou melhorar a qualidade de vida diretamente, substituindo uma parte do corpo que não está funcionando bem em um paciente, também é possível que essa contribuição solidária ocorra de maneira mais indireta, mas não por isso menos importante. A doação de órgãos e corpos para a ciência após a morte é também uma forma de salvar vidas.

    A decisão pode contribuir para a realização de pesquisas na área da saúde e a formação e o aprimoramento de profissionais de cursos como Medicina, Biomedicina, Fisioterapia e Psicologia. Mesmo com o avanço da tecnologia, que possibilita trabalhar com bonecos capazes de replicar reações humanas a um tratamento médico, o contato com corpos reais continua sendo considerado imprescindível e é uma dificuldade constante nos centros de formação, que costumam depender de cadáveres sem identificação para serem usados nas aulas.

    O processo é diferente da doação destinada aos transplantes: enquanto esta depende do consentimento de familiares, a concessão para a ciência é uma decisão exclusiva da pessoa, que pode registrar sua vontade em um cartório e definir para qual instituição seu corpo irá após a morte.

    Conforme a Sociedade Brasileira de Anatomia, entre os benefícios da doação de corpos para a ciência estão a contribuição para a melhor formação técnica dos profissionais da saúde e o desenvolvimento de novas técnicas cirúrgicas que possam ser mais eficientes e menos invasivas.


    Doação de órgãos

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