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    Opinião


    Vergonha brasileira: espetáculo no Senado

    Neste país, projetos individuais se sobrepõem acintosamente às instituições

    Foi uma verdadeira aula de pré-primário, com os senadores se comportando como crianças
    Foi uma verdadeira aula de pré-primário, com os senadores se comportando como crianças | Foto: Agência Senado

    As cortinas se abriram para o grande espetáculo. Os candeeiros de "luzes néon" clareiam a esperança do povão brasileiro num enfeite eufórico, era a posse e eleição dos novos dirigentes do Senado Federal. A votação para definir o presidente da 56ª legislatura do Senado Federal do Brasil.

    Foi uma verdadeira aula de pré-primário, com os senadores se comportando como crianças. Abriram votação para decidir se a escolha do presidente do Senado seria por voto aberto (ou seja, cada senador declarando em quem votaria) ou fechado. Chegaram à conclusão de que o voto seria aberto, por 50 votos a 2. Discutiram por discordar da votação.

    Adiaram a votação para o dia seguinte, recorreram ao STF, que definiu que a votação seria fechada. Ignoraram a definição do STF e declararam em quem votavam. Finalmente iniciaram a votação.

    Ao contar, viram que havia 82 votos, sendo que há 81 senadores. Eles tiveram que votar novamente e viram um dos favoritos na disputa se irritar com o voto aberto e desistir de concorrer. Jorge Kajuru discursava sobre o compromisso dos parlamentares quando fechou sua fala cantando um clássico de Ivan Lins:

    "Depende de nós, que este mundo ainda tem jeito, apesar do que o homem tem feito,  a justiça sobreviverá”.

    Caros leitores, não é fácil conciliar a livre busca do interesse individual com o respeito às exigências comunitárias fundamentais. Num mundo marcado pela total impessoalidade, a retórica da probidade é mais lucrativa que a prática solitária da virtude. Só que na sociedade brasileira exagera-se na teatralização.

    Por aqui, a irrefreável tendência a tirar vantagem das situações é encenada, sobretudo pelos políticos profissionais, como indignação contra os desmandos administrativos e a corrupção endêmica. Como a consciência ética é seletiva, irregularidades só são apontadas quando convêm aos que disputam fatias do Poder.

    Neste país, projetos individuais se sobrepõem acintosamente às instituições. Como é fácil driblar as regras fundamentais do jogo social, a elite se sente sempre tentada a perseguir de forma selvagem seus interesses.

    Por mimetismo, a classe média e o povão justificam o crescente recurso a expedientes ilegais como imperativo de sobrevivência na selva dos grandes centros urbanos. Enquanto nefelibatas acreditam que expurgos ideológicos podem livrar a sociedade de suas velhas nódoas. Os maquiavélicos transformam a lama, própria e alheia, na água benta que os batizará para o exercício do poder.

    As sociedades que mais estiveram à mercê de surtos de autoritarismo são rotineiramente abaladas por escândalos escabrosos. A vulnerabilidade institucional que outrora ensejou a implantação de regimes discricionários hoje propicia a roubalheira sistemática.

    Com a aposentadoria dos caudilhos e generais, os ladrões engravatados se profissionalizaram. Na origem do autoritarismo e da ladroagem encontramos uma mesma causa: a debilidade institucional.

    Se o perigo das recaídas ditatoriais parece mais distante, a fraqueza das instituições dá azo à insegurança generalizada e aos saques programados do Erário. Infelizmente, a sociedade brasileira ainda acredita que seus problemas poderão ser minorados se der a sorte de escolher pessoas honestas para postos-chave.

    É fraca a consciência da urgência de se criarem dispositivos que fortaleçam as instituições de modo a dificultar as ações dos que desejam manipulá-las em benefício próprio. É interessante notar que se, por um lado, as instituições são débeis a ponto de se deixarem manobrar por interesses pessoais, por outro, o indivíduo delas não recebe a proteção básica a seus direitos fundamentais.

    O que torna nossa sociedade perversa é o fato de a vulnerabilidade institucional ser benéfica aos poderosos e madrasta para o cidadão comum. Das práticas mais comezinhas do cotidiano às decisões dos mais altos escalões administrativos é patente que as instituições não conseguem impor funcionalidades impessoais.

    Não servem à coletividade porque funcionam mal e porque se ajustam aos projetos de seus dirigentes circunstanciais. Num certo sentido, continuamos reféns da mentalidade do colonizador.

    No subconsciente das classes dirigentes ainda subsiste muito do velho desejo de "descobrir ouro" para fazer fortuna e cegar as massas com o ouro de tolo das promessas a fim de manobrá-las. Para os destituídos de "sabedoria", sobra o trabalho duro.

    O extrativismo econômico se transforma, deslocado para o campo das mentalidades, na atitude de que é preciso tirar vantagem das situações. Por essa razão, pouco se veste a camisa da coletividade. A busca míope de objetivos pessoais e grupais desconsidera os imperativos globais.

    Com isso, vão as instituições se afastando dos princípios para a realização dos quais foram projetadas. Como os desvios de conduta não são esporádicos e localizados, difunde-se a sensação de decadência coletiva. Não por acaso, essa eleição do Senado foi precedida de tiroteio entre os caciques da política brasileira.

    Todos subitamente se convertem à causa da moralização dos costumes. É uma pena, não poderia a casa de Ruy Barbosa, ter mostrado ao Brasil que seus integrantes são garotos marotos de adolescência madura e maquiavélicos.

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