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    Opinião


    O que são Imunidades Tributárias de forma Geral e dos Templos?

    Quais são suas finalidades, bases jurídicas e benefícios?

    Dalimar Silva | Foto: Arquivo Pessoal

    Num tempo de crise econômica sem precedentes, é bastante oportuno saber que existem possibilidades de pedir restituição de créditos tributários junto aos órgãos competentes, em razão de pagamentos indevidos de impostos por quem não deveria tê-los pago, devido serem alcançadas pelo Instituto denominado Imunidades Tributárias, assunto que será exposto nesse artigo. Insta esclarecer que daremos maior ênfase às Imunidades Tributárias dos Templos e Instituições Religiosas

    Este artigo teve como base a leitura do livro do grande tributarista Roque Antônio Carrazza: Imunidades Tributárias dos Templos e Instituições Religiosas (Editora Noeses).

    1. A Constituição Federal e a Imunidade Tributária

    A Constituição Federal de 1988, no artigo 145, instituiu `a União, Estados, Distrito Federal e Municípios, a capacidade de realizar tributos, no entanto, possuindo algumas limitações do poder de tributar em alguns assuntos.

    O inciso III, do artigo 150 da Carta Suprema protege algumas instituições de serem tributadas (com impostos), conforme se verifica a seguir:

    Art. 150. Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios:

    (...)

    VI - instituir impostos sobre: (Vide Emenda Constitucional nº 3, de 1993)

    a) patrimônio, renda ou serviços, uns dos outros;

    b) templos de qualquer culto; (grifamos)

    c) patrimônio, renda ou serviços dos partidos políticos, inclusive suas fundações, das entidades sindicais dos trabalhadores, das instituições de educação e de assistência social, sem fins lucrativos, atendidos os requisitos da lei;

    d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão.

    e) fonogramas e videofonogramas musicais produzidos no Brasil contendo obras musicais ou literomusicais de autores brasileiros e/ou obras em geral interpretadas por artistas brasileiros bem como os suportes materiais ou arquivos digitais que os contenham, salvo na etapa de replicação industrial de mídias ópticas de leitura a laser. (Incluída pela Emenda Constitucional nº 75, de 15.10.2013)

     A imunidade tributária é um instrumento fundamental, que possui o objetivo de promoção e proteção dos valores considerados essenciais para sociedade comum. Nesse sentido, Soares Melo, elucida:

    O objetivo da imunidade é a preservação dos valores considerados como interesse superior nacional, tais como a manutenção das entidades federadas, os exercícios de atividades religiosas, da democracia, as instituições educacionais, assistências e filantropia e o acesso às informações (2012, p.156).

    A imunidade tributária pode ser definida como a “exoneração, fixada constitucionalmente, traduzida como uma norma expressa impeditiva da atribuição de competência tributária” (2012, p.157).

    Logo, as imunidades tributárias possuem assento constitucional, e deste modo, seu alcance não pode ser amesquinhado, nem muito menos destruído, por normas infraconstitucionais, desse modo, por serem plasmadas pela Constituição, não podem ser neutralizadas, nem pela lei, nem muito menos, por quem a aplica (de ofício ou contenciosamente), entendimento extraído do grande tributarista Roque Carrazza (p. 19). O próprio Supremo Tribunal Federal, reconheceu e sedimentou esse entendimento, no RE nº. 38.509-DF, 1ª Turma, relator: Ministro Dias Toffoli, que no teor do referido julgado (citado por Carrazza, p. 18), se lê, in verbis:

    A IMUNIDADE é uma garantia constitucional outorgada pela Carta Política ao jurisdicionado. É um direito fundamental que deve, com tal predicação, ser interpretado extensivamente. (grifo nosso)

    Também em outros julgados, o Pretório Excelso (Corte Suprema) acolheu a tese de que as imunidades tributárias devem receber interpretação extensiva e teleológica, a exemplo do julgamento do Pedido de Liminar na ADI nº 2.028-5.

    As normas imunizantes impedem que as de tributação atuem, motivo, pelo qual criam situações permanentes de não-incidência, que, ao contrário do que se dá com as isenções tributárias, nem mesmo a lei pode anular. Nesse sentido, segundo Carrazza (p.10), as Imunidades Tributárias: 

    a) estão apontadas na Carta Magna e, nesta medida, não podem ser revogadas ou derrogadas por atos normativos de nível infraconstitucional; 

    b) delimitam as competências das pessoas políticas para que criem in abstracto tributos; e, 

    c) distinguem-se das isenções tributárias, que tendo sede infraconstitucional, são passíveis de revogação ou derrogação, por meio de lei.  E aduz ainda que:

    Dessa forma, caso o ente tributante venha a atingir o patrimônio de pessoa imune, esta terá legitimação ativa para ingressar em juízo e pleitear a invalidade da pretensão. (Carrazza, p.11, grifo nosso).

    Destacamos ainda, sobre o tema, as lições de Renato Lopes Becho (in Carrazza, p.7), em matéria de Imunidade, a primeira fonte é a Constituição Federal. Abaixo dela, a fonte jurídica da Imunidade é o Poder Judiciário. Não há espaço, nessa matéria, para o desenvolvimento legislativo, o que significa dizer que a Lei ou o Processo Legislativo não é fonte do Direito em relação às imunidades. 

    Nessa esteira, Antônio Roberto Sampaio Dória (in Carrazza, p.9), tece importantes considerações que corroboram com esse entendimento:

    Imunidade não é favor. Não é liberação de alguns de um dever coletivo. É salvaguarda constitucional imanente que politicamente estrutura um regime, definindo certas matérias que reputa de vital relevância, e atraindo certas matérias, que reputa de vital importância, e atraindo-as para sua esfera normativa, exclusiva. (grifo nosso)

    Por fim, a importância da imunidade tributária tem como fundamento a severidade que as atividades são desenvolvidas pelas instituições e não estarão inseridas no esforço coletivo de levar dinheiro aos cofres públicos, sendo, portanto, a imunidade, uma assistência econômica concedida pelo Estado, em determinados casos, em razão de valores sociais desempenhados perante a sociedade.

    2. Imunidade dos templos religiosos de qualquer culto

    Os templos de qualquer culto são imunes à tributação por meio de impostos, segundo as disposições do artigo 150, VI, alínea “b”, da Constituição Federal:

    Art. 150- Sem prejuízo de outras garantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal, e aos Municípios: (...)

    VI- Instituir impostos sobre: (...)

    b) templos de qualquer culto. (grifamos)

    Para Eduardo Sabbag, a instrução da norma constitucional sobre os templos religiosos, não pode ser definida como um benefício, mas uma destituição atribuída por norma constitucional. (2014, p.325). Para Rocha Lopes elucida:

    “A dita imunidade está, assim, diretamente relacionada ao livre exercício de cultos religiosos e a proteção dos respectivos locais e de suas liturgias. (2009, p.90).”

    Preliminarmente, deve-se entender por templos, não apenas os edifícios do culto, como todas as instalações, inclusive as a eles anexas, desde que correlacionadas às práticas religiosas. Esta referida Imunidade representa a extensão do direito fundamental à liberdade de consciência e de crença, consagrado no art. 5º, incisos VI, VII, e VIII, da Constituição Federal, verbis: 

    Art. 5º. Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País, a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: 

    VI- é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo  assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;

    VII- é assegurada, nos termos da lei, a prestação de assistência religiosa nas entidades civis e militares de internação coletiva;

    VII- ninguém será privado de direitos por motivo de crenças religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei. 

    Nessa linha, a liberdade religiosa, afirmada e confirmada em nosso Texto Supremo, reclama, máxime das autoridades públicas, o pleno respeito às convicções e à independência espiritual de cada indivíduo. Direito Fundamental, consagrado na própria Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 18), da qual o Brasil é signatário, ou seja, pertence ao núcleo irredutível da Constituição Federal. 

    Segundo Carrazza (p. 26), que capitaneia um grande número de juristas que corroboram com esse entendimento, que a imunidade tributária dos templos de qualquer culto reforça e salvaguarda o princípio da liberdade religiosa. Tipifica, no dizer expressivo de Ricardo Lobo Torres (p. 210 in Carrazza, p. 26), seu contraponto fiscal. Justamente por este motivo, a imunidade do art. 150, VI, b, da Constituição Federal, deve ser interpretado com vistas largas. Mais do que o templo propriamente dito, isto é, o local destinado a cerimônias religiosas, a desoneração constitucional alcança a própria entidade mantenedora (a Igreja), além de estender-se, a tudo o que se relacionar às liturgias. 

    Enfim, para que, como determina a Constituição Federal, a liberdade de culto venha adequadamente prestigiada, é imprescindível que a desoneração fiscal em tela se faça sentir sobre todas as situações relacionadas às práticas religiosas. Logo, é preciso desonerar de impostos, não apenas o prédio onde o culto se desenvolve, mas tudo o que está relacionado à atividade religiosa, vale dizer, na pessoa jurídica, regularmente constituída, que mantém, como finalidade essencial (art. 150, §4º, da CF), atividades religiosas.

    Aprofundando o assunto, o renomado autor acentua que, está dentro das finalidades essenciais do templo de qualquer culto, sua construção, decoração e manutenção. Isso porque a imunidade em questão protege o patrimônio da Igreja, compreendendo seus bens móveis e imóveis, corpóreos ou não, empregados no culto religioso ou na sua difusão (Carrazza, p. 28):

    Em face do exposto, não temos dúvidas em afirmar que todas estas operações jurídicas são imunes ao IPI, ao ICMS, ao imposto sobre a importação, ao PIS e à COFINS (p. 28)...Ora, em consequência da regra imunizante em estudo, nenhum destes impostos- nem quaisquer outros que incidam sobre atos ou fatos coligados ao exercício das atividades religiosas-pode onerar os templos de qualquer culto (p.29)

    O Estado aqui (tomado no sentido de pessoa política tributante), não pode, nem mesmo por meio de impostos, embaraçar, quer o exercício dos cultos religiosos, quer os atos de benemerência consentâneos com os ideários da Igreja (p.30).

    O Douto jurista Carrazza (p. 30) prossegue, aduzindo sua opinião, que também corrobora com a nossa, no seguinte sentido: a imunidade aos templos, prevista no art. 150, VI, b, da Constituição Federal, materializa o interesse da sociedade em ver afastados procedimentos, ainda que normatizados, capazes de inibir a livre manifestação das pessoas e os atos de amor ao próximo, benemerência e promoção social, que dele derivarem. E quais são as finalidades essenciais do culto?

    A nosso sentir, as que referem à prática dos atos litúrgicos, à divulgação das crenças da Igreja, à orientação espiritual dos fiéis, à formação dos ministros da entidade religiosa e ao exercício de atividades filantrópicas e de assistência social, que põem em ação os ensinamentos doutrinários da confissão religiosa. Cumpre ressaltar que as finalidades essenciais do culto podem perfeitamente ser alcançadas além das fronteiras do País (Carrazza, p.33).

    Conclusão

    Portanto, as Imunidades Tributarias referem-se a Impostos, e não a taxas, e protegem determinados valores que são preciosos para a sociedade. O objetivo da imunidade é a "preservação dos valores considerados como interesse superior nacional, tais como a manutenção das entidades federadas, os exercícios de atividades religiosas, da democracia, as instituições educacionais, assistências e filantropia e o acesso às informações".

    A exemplo dos templos de qualquer culto, sem a imunidade do patrimônio, das rendas e dos serviços relacionados às suas finalidades essenciais, a própria continuidade dos cultos religiosos estaria em risco, porque dependem da sempre incerta doação dos fiéis, ainda mais nos tempos atuais, marcados pelas graves crises econômicas, e especialmente assinalada pela Pandemia ocasionada pelo COVID. Cumpre destacar que as igrejas realizam um importante trabalho social que deveria ser assumido pelo próprio Estado. 

    Desta forma, como fora exposto no texto, qualquer instituição que pretende pleitear os valores pagos de forma indevida, deve ter em atenção, o prazo prescricional de 05 (cinco) anos, ou sessenta meses. Ademais, aconselhamos que procurem um advogado de confiança para buscar as orientações de como proceder. 

    Qual sua opinião sobre esse tema? O presente artigo não pretende esgotar esse tema de grande relevância social, mas objetiva trazer uma reflexão numa linguagem acessível a todos os leitores. 


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