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    Opinião


    Alienados que sustentam discursos pelo discurso do outro

    O medíocre, fingindo conformidade com o curso das coisas, engana a si mesmo e aos outros. Leia o artigo de opinião de Flavio Lauria

    Leia o artigo de Flavio Lauria
    Leia o artigo de Flavio Lauria | Foto: Reprodução

    Caros leitores(a), sou daqueles que acreditam que são as forças opostas que impulsionam a roda d’água do universo. Para mim, continuar vivo é manter verde a árvore do apaixonar-se e ter sempre uma brasa de indignação faiscando.

    Em outras palavras, cultivar o amor e a repulsa, para não usar a palavra ódio, forte demais para nosso imaginário. Quem não se apaixona nem sente indignação está morto, ou é medíocre, que é uma forma de estar morto sem passar pelos ritos necessários. O medíocre, fingindo conformidade com o curso das  coisas, engana a si mesmo e aos outros. É fácil descobri-lo. É aquele sujeito que, mesmo ante a guerra, proclama o inconsistente mote “faz parte”. Como se fôssemos condenados a um destino inexorável, ditado por algum exótico poder extra história.

    Além do medíocre, existe também outro tipo de morto-vivo. Chamarei de alienado. É aquele que, embora tenha paixão e indignação, é por causa de personagens alheios, tomados como seus por falta de coragem, ou para comungar da aparente grandeza dos arautos. O tipo alienado sustenta seu discurso no discurso dos outros. “Você viu o que o fulano falou?” “A Revista X defende...” “A moça do telejornal anunciou...” Como se o nome de alguém ou de algo, por si só, avalizasse verdades absolutas para todos os cérebros. Ante a guerra que travamos no momento contra o Coronavírus, é muito fácil distinguir os homens vivos.

    Há muitos por aí apaixonados e outros tantos indignados. Há, também, os medíocres, embora em menor número. A guerra é uma situação-limite na qual o amor e a indignação podem ser admirados na transparência de suas contraditórias forças. Na guerra, a vida é a juíza da história. Ao menos, deviam deixá-la no discernimento de todas as crises. Porque a vida é a fundadora de todas as escolhas, condição sine qua non para todo argumento.

    Sob seu olhar, como quando ingerimos um contraste daqueles para radiografias viscerais, podemos enxergar os homens de grandes causas e diferenciá-los dos medíocres e alienados. Fico impressionado com a cara de pau de um médico que fez o juramento de Hipócrates, decidir quem vai morrer, se é o velho ou o jovem, se é o pobre ou o rico, e isso foi dito por vários médicos nessa pandemia dentro das UTIs, principalmente pelo novo Ministro da Saúde, quando disse em meio a um discurso: eu tenho duas pessoas um idoso e um adolescente, só que esse adolescente vai ter a vida inteira pela frente e a outra o idoso, que pode estar no final da vida, qual vai ser a escolha? Idiota, acha que porque é idoso tem que morrer.

    Nenhum argumento justificará a morte, pois ela inviabiliza qualquer possibilidade de reavaliação dos rumos escolhidos. A guerra/morte me causa indignação. A paz/vida me apaixona. Não digam que fiz uma opção por algum povo, por alguma personagem ou por um sistema político-econômico. O medíocre, fingindo conformidade com o curso das coisas, engana a si mesmo e aos outros.

    Minha declaração também não é uma mostra de altruísmo, nem de grandeza de espírito. Sou é muito egoísta. Só estou defendendo aqui minha vida, com ideias, unhas e dentes, sendo “unhas e dentes” apenas força de expressão. Quero amanhã de manhã, e nas manhãs que se seguirem, poder estar vivo para apaixonar-me pelas estrelas e indignar-me com as péssimas músicas sertanejas que fazem sucesso, coisas triviais. Como sei que vou morrer de qualquer jeito, pretendo seja por causa natural. Causa natural eu chamo aquela que nos incendeia em profunda indignação, mas contra a qual não há nada a ser feito pelos homens. O que não é, absolutamente, o caso dessa guerra. 

    *Flavio Lauria é administrador de empresas com Mestrado e Doutorado em Administração Pública

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