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    Reflexo da violência


    Motoristas de app vítimas de crimes voltam abalados ao trabalho no AM

    Em meio à falta de oportunidades no mercado de trabalho, motoristas de aplicativos vítimas de assaltos e de tentativas de latrocínio são obrigados a continuarem exercendo a profissão

     

    Só em 2021, mais de 260 motoristas foram vítimas de crimes em Manaus
    Só em 2021, mais de 260 motoristas foram vítimas de crimes em Manaus | Foto: Reprodução

    MANAUS (AM) - Quase um ano após a noite de pânico em que por pouco não perdeu a vida, o estudante universitário e motorista de aplicativo Joaquim Silva*, de 29 anos, carrega no rosto as marcas de uma tentativa de latrocínio, na Zona Oeste de Manaus. Em meio a falta de oportunidades no mercado de trabalho, o jovem teve de superar o trauma e continuar exercendo a mesma profissão.

      Era madrugada do dia 27 de setembro de 2020, quando o jovem aguardava próximo à praia da Ponta Negra, na Zona Oeste da capital, uma última chamada para encerrar o dia de trabalho. Por volta da meia-noite, dois homens e uma mulher solicitaram uma corrida e entraram no carro. Iniciava ali um pesadelo que marcaria para sempre a memória do universitário.  

    O destino final foi a rua Santa Isabel, do bairro Santo Agostinho, quando o trio anunciou o assalto e tentou render a vítima com uma faca. "O passageiro que estava na frente tentou me segurar, enquanto o que estava atrás de mim envolveu o braço dele no meu pescoço. O tempo todo um deles falava que iria estourar a minha cabeça. Falei que eles poderiam levar tudo, tentei negociar com a mulher, mas ela não fazia nada, só assistia os outros dois me agredindo", relembrou o motorista. 

     

    Joaquim reagiu a um assalto
    Joaquim reagiu a um assalto | Foto: Reprodução

    Joaquim conta que quando percebeu que eles não estavam portando arma de fogo, tentou reagir e travou luta corporal com os dois.

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    Um deles puxava meu braço e outro me enforcava, foi quando senti que eles não estavam com revólver e tentei arrancar com o carro, acho que isso os irritou ainda mais. O homem que estava ao meu lado tirou a chave da ignição e o criminoso de trás sacou uma faca para cortar o meu pescoço. Ele queria me degolar, mas eu segurei parte da faca e mordi muito o braço dele. Ele ainda riu, disse que eu havia 'vacilado' e iria morrer "

    , relatou

     

    Enquanto lutava por sua própria sobrevivência, o motorista de aplicativos saiu para fora do carro, juntamente com os dois criminosos, foi nesse momento em que eu gritei por socorro, alguns cachorros latiram, e um morador da área saiu da casa e intimidou os bandidos. Um detalhe deixou o episódio ainda mais traumatizante para Breno e os familiares.

    "Quebraram a chave do carro, levaram o meu celular e fugiram a pé. Depois, descobri que durante o assalto, o meu celular acabou ligando para a minha mãe, que mora em Tapauá, no interior do estado. Ela atendeu e ouviu parte dos gritos e da ameaça dos bandidos, como não podia ser diferente, ela ficou desesperada, sem poder fazer nada e achou que eu pudesse ter morrido", relata.

    Machucado, Joaquim foi socorrido pela vizinhança e levado para o Serviço de Pronto Atendimento (SPA) Joventina Dias, na Compensa, onde recebeu atendimento médico, e em seguida conseguiu contatar a mãe para tranquilizá-la. A Polícia Civil segue investigando o caso e já recuperou o celular roubado do jovem, entretanto, os autores do crime ainda não foram presos.

    'O recomeço'

    Voltar a trabalhar foi um desafio não só para Joaquim, mas para todos os seus amigos e familiares. Sem emprego à vista, ele teve de voltar a realizar corridas para pagar as contas. "Como não recebi nenhuma proposta de emprego, com horário flexível, por conta da minha faculdade, na qual tenho aulas em diferentes turnos, acabei ficando sem opção e tive de voltar a fazer corridas a contragosto dos meus pais".

     

    Marcas de assaltos
    Marcas de assaltos | Foto: Reprodução

    "Quando voltei a trabalhar como motorista de aplicativo, depois de um mês depois [da tentativa de latrocínio], e foi bem difícil. Eu ficava em pânico toda vez que alguém sentava atrás de mim, meus pais também ficavam muito preocupados, sempre me mandavam mensagem. Depois de um tempo, as coisas foram se acalmando mais, hoje em dia, eu só trabalho aceitando cartão, acho bem mais seguro, mas ainda procuro por emprego para deixar de rodar", afirmou ele.

    'Achei que ia morrer'

      Há pouco mais de um ano, o jovem Juan Gabriel, de 20 anos, também sofreu nas mãos de bandidos. Na madrugada do dia 15 de junho, ele realizava corrida pela região do bairro Cidade de Deus, na Zona Norte, quando recebeu a solicitação de uma viagem para o bairro Tarumã, na Zona Oeste da cidade.  

    "Não lembro direito o nome da rua, só sei que eles anunciaram o assalto e me colocaram no porta-malas. Foram momentos terríveis, de muita aflição, achei que ia morrer. Escutava eles conversando e cometendo assaltos pela cidade", descreve Juan.

     

    Em assaltos, motoristas são colocados em porta-malas
    Em assaltos, motoristas são colocados em porta-malas | Foto: Reprodução

     O jovem lembra que os bandidos o deixaram em uma rua deserta do Tarumã. "Eu tive de quebrar a tampa interna do porta-malas para poder sair e pedir por socorro", relembra o jovem. "Fiquei algumas semanas sem rodar, mas como precisava de dinheiro, resolvi voltar a trabalhar, mas agora só durante o dia. É claro que ainda sinto medo até hoje, por conta de tudo o que aconteceu e tento ser mais bem precavido".

    Plataformas inseguras

    Em conversa com a equipe de reportagem do EM TEMPO, o presidente da Associação dos Motoristas e Entregadores por aplicativo do Estado do Amazonas (Ameap-AM), Alexandre Matias, criticou a falta de segurança das plataformas de aplicativo.

    “Há uma fragilidade em todos os aplicativos. Por exemplo, se alguém furta ou rouba o celular de alguém, o ladrão poderá solicitar corrida por aplicativo instalado nesse mesmo dispositivo”, disse Alexandre.

    O presidente da Ameap também ressaltou algumas medidas de segurança. “É importante que o motorista informe ao passageiro que a viagem está sendo monitorada. Ao chegar no local da corrida, o condutor deve abaixar um pouco o vidro e perguntar o nome do passageiro da viagem”, destacou ele.

    Vítimas diárias

    Em 2021, todos os os dias, mais de um motorista de aplicativo é vítima de violência urbana na capital do Amazonas, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM). De janeiro a junho,  Manaus registrou 254 casos de roubo a motoristas de aplicativo só nestes anos, além disso, nove motoristas perderam a vida enquanto trabalhavam em plataformas de transporte urbano.

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