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    Tatuagens do Crime


    Tatuagens de criminosos revelam códigos e perfis de facções no AM

    Esses símbolos relacionados ao mundo do crime têm como finalidade indicar a personalidade do criminoso e as características do crime que o infrator comete na sociedade

    Homicidas costumam estampar o boneco Chucky na pele | Foto: Thiago Monteiro

    Manaus A tatuagem é uma forma de expressão presente há muito tempo na história da humanidade. Descobertas arqueológicas apontam que pessoas que viveram no antigo Egito, há mais de 5 mil anos, já costumavam marcar o corpo com tatuagens. Desde antigas civilizações, até os dias atuais, a arte na pele é atribuída a diferentes significados e utilizada para diversos propósitos.

    Tribos primitivas utilizavam a tatuagem para ritos de passagem e para demonstrar hierarquia. Dentre os vários propósitos da tatuagem, a arte corporal também passou a ser utilizada como forma de comunicação no “mundo do crime”.

    Com o passar dos anos, a tatuagem tornou-se cada vez mais comum no cotidiano das pessoas, e a prática ganha cada vez mais fãs no Brasil e no mundo. É muito comum encontrar “tatuados” de diferentes idades, classes sociais que têm em comum a paixão pela arte corporal. Muito além de apenas tinta na pele, a tatuagem pode ter diversos sentidos.

    Seja para expressão, comunicação ou como forma de pertencimento a grupos sociais, as pessoas se tatuam pelos mais diferentes motivos. Para poder existir, cada grupo social precisa estabelecer estratégias de organização das relações sociais. Essas regras são pautadas por relações de poder que estabelecem os códigos éticos a serem seguidos pelos indivíduos, como explica o sociólogo Francinézio Amaral.

    “É essencial que saibamos que a vida em sociedade é dinâmica, portanto, esses conjuntos de regras sofrem alterações constantes, de acordo com as demandas desses indivíduos, uma vez que os interesses estão sempre se conflitando. É essa dinâmica, pautada nos conflitos de interesses, que dá vida às sociedades, e uma de suas bases é a cultura. Assim, a tatuagem está na história da humanidade como um dos elementos simbólicos que ajudam na consolidação de identidades, no estabelecimento de hierarquias, na distinção social e econômica dos mais diversos grupos sociais, sejam eles de organização simples ou complexa”, afirmou o sociólogo.

    Tatuagens do crime

    As tríades chinesas são consideradas as organizações criminosas mais antigas a utilizarem a tatuagem como forma de comunicação. Trata-se de uma máfia secreta que surgiu na China em meados do século XVI. Outra máfia que ficou conhecida por seus membros cobrirem os corpos com tatuagens foi a Yakuza, organização criminosa originária do Japão.

    Porém, entre essas máfias tradicionais, as tatuagens são exclusivas para a comunicação entre os membros da própria organização criminosa. Já no Brasil, mais especificamente no Amazonas, membros de facções criminosas costumam não esconder as tatuagens, conforme uma fonte da área da segurança pública, que terá a identidade preservada.

    “A questão da tatuagem é algo que sempre existiu na humanidade. Isso foi evoluindo e virou símbolo de status dentro da sociedade, e as organizações criminosas são microssociedades. Temos visto o aumento dessas organizações, que são divididas por graus de status. Vemos muitos jovens que ganham status social e poder, conforme o nível de envolvimento e o tipo de crime que cometem”, afirmou a fonte.

    O crime organizado também está inserido no contexto de grupo social inserido na macrossociedade. Dessa forma, também possui os códigos éticos que organizam as relações mediadas pelo poder entre seus indivíduos, como explica o sociólogo Amaral.

    “Um desses códigos organizativos é a prática da tatuagem que tem diversos sentidos, que vão desde a organização hierárquica, passando pela tipologia dos crimes praticados, até a punição de indivíduos por conta da quebra do código de conduta. Assim, o fato de criminosos recorrerem à tatuagem como fator de organização social não deve ser entendido como algo estranho, uma vez que esse recurso de fortalecimento de identidades é algo comum na vida em sociedade”, disse Amaral.

    No meio do crime organizado, determinados símbolos vão muito além de simples tatuagens. São representações que podem significar o quanto a pessoa está envolvida no meio do crime. Segundo Hebert Ferreira, titular da Secretaria Executiva Adjunta de Inteligência (Seai), as tatuagens relacionadas ao mundo do crime têm como finalidade indicar a personalidade do criminoso e as características do crime.

    “É uma forma de orientar a interação entre os presos no ambiente prisional, mediante um diálogo simbólico, ou ainda representar sua organização criminosa”, afirma.

    Ainda conforme o titular da Seai, “não existem dados estatísticos que indiquem a relação entre o criminoso e o crime cometido por meio do uso de tatuagens, no entanto, observa-se que algumas possuiriam significado específico no mundo do crime.”

    Conforme a fonte anônima, não é apenas a tatuagem que pode caracterizar um criminoso, todos os fatores relacionados devem ser analisados. “Precisamos analisar todas as circunstâncias. Quando prendemos uma pessoa e verificamos que a pessoa não tem identidade, durante o procedimento de identificação, tiramos foto da pessoa de todos os ângulos e das tatuagens. Fazemos o levantamento para ver se o indivíduo está envolvido em algum crime, e a tatuagem geralmente é um indicativo. Por exemplo, uma simples tatuagem de palhaço (que no meio do crime significa matador de policial) não é suficiente para dizer que a pessoa é de uma organização, mas é um indicativo”, afirmou a fonte anônima. Dessa forma, é importante salientar que certos desenhos não devem ser generalizados.

    No Amazonas, conforme observado pelos profissionais da segurança, as facções criminosas também utilizam alguns símbolos para mostrar o envolvimento com a organização. Já foi registrado que membros das facções Família do Norte (FDN), Comando Vermelho (CV) e PCC possuem tatuagens que denunciam “fidelidade” às respectivas organizações.

    Tatuagens do crime e seus significados

    A reportagem do Em Tempo teve acesso, com exclusividade, à uma relação da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP) com os principais símbolos tatuados pelos criminosos do Amazonas como forma de comunicação. Baseado nessa lista e na conversa com a fonte de segurança pública, o Em Tempo listou os principais símbolos utilizados no meio do crime organizado.

    Carpa 

    A carpa com a cabeça virada para cima significa alguém em ascensão no mundo do crime
    A carpa com a cabeça virada para cima significa alguém em ascensão no mundo do crime | Foto: divulgação


    Uma das tatuagens mais comuns entre os criminosos é o desenho da carpa. Seria utilizada por integrantes da FDN para apontar uma subdivisão dentro da organização criminosa, apesar de indicar em outros estados que a mesma seria utilizada pelo PCC para identificar seus integrantes. A carpa com a cabeça virada para cima significa alguém em ascensão no mundo do crime.

    Palhaço

    Em todo o território nacional, o palhaço representa matador de policiais
    Em todo o território nacional, o palhaço representa matador de policiais | Foto: divulgação


    A imagem do palhaço indica matadores de policial e também pessoas envolvidas em roubos e outros ilícitos. No Amazonas, o palhaço também tem associação com o traficante João Branco que usa a tatuagem do palhaço como marca.

    Teia de aranha

    Quem possui a teia marcada no corpo no mundo do crime demonstra ligações com diversos tipos de crimes
    Quem possui a teia marcada no corpo no mundo do crime demonstra ligações com diversos tipos de crimes | Foto: divulgação


    Indica que o criminoso faz parte de uma organização maior, atua em bando e compartilha uma teia de informações.

    Coringa 

    Quem pratica roubos ou sequestros, geralmente, se insira no personagem dos quadrinhos
    Quem pratica roubos ou sequestros, geralmente, se insira no personagem dos quadrinhos | Foto: divulgação


    O desenho do personagem Coringa geralmente está associado a roubos, sequestros e principalmente homicídio de policial.

    Arlequina 

    O mesmo acontece com as mulheres que tatuam a arlequina, personagem que representa a participação em roubos
    O mesmo acontece com as mulheres que tatuam a arlequina, personagem que representa a participação em roubos | Foto: divulgação


    Seria utilizada por mulheres para indicar envolvimento com roubo.

    Bruxo/Mago

    Os envolvidos com o tráfico de drogas costumam tatuar magos e bruxos para demonstrar ascensão nas facções
    Os envolvidos com o tráfico de drogas costumam tatuar magos e bruxos para demonstrar ascensão nas facções | Foto: divulgação


     Está em ascendência no tráfico de rua.

    Cruz – Pode significar quantidade de homicídios que o indivíduo cometeu e também pode indicar que a pessoa já foi presa várias vezes.

    Duende/Gnomo – Serviria para identificar traficantes ou usuários.

    Boneco Chucky 

    Homicidas costumam estampar o boneco Chucky  na pele
    Homicidas costumam estampar o boneco Chucky na pele | Foto: Thiago Monteiro


    Indivíduo que age com certa violência, geralmente homicidas e indivíduos que realizam Roubo. Também é uma imagem vinculada à facção ‘Amigos dos Amigos (ADA)’, a terceira organização mais poderosa do Rio de Janeiro.

    Índia - Associada a morte de policiais e prática de roubo.

    Nossa Senhora Aparecida - Tatuado próximo ao peito indicaria proteção. Já tatuado nos membros inferiores e barriga o indivíduo seria um latrocida.

    Folha de Maconha - Seria usuário de drogas.

    Vida Loka

    Pessoa livre, que costuma fazer de tudo na organização criminosa
    Pessoa livre, que costuma fazer de tudo na organização criminosa | Foto: divulgação


    Indivíduo que agiria sem medir consequências ou atos.

    Imagem de diabo - Estaria associado aos pistoleiros.

    Papa-Léguas - Destruição de drogas. Também pode indicar distribuição de entorpecentes.

    Diabo da Tasmânia - Indivíduo ligado a roubo ou arrastões.

    157 e 121 - Outra tatuagem utilizada por internos mais antigos do sistema prisional local é a descrição do artigo do crime praticado pelo indivíduo. Exemplo: 157 para roubo e 121 para homicídio.

    Tatuagens específicas das facções do Amazonas

    FDN – Além da imagem da carpa, membros da FDN também costumam tatuar a sigla da facção. A imagem do palhaço está associada ao "Bonde do potência máxima", do traficante João Branco.

    Integrantes da FDN costumam tatuar a sigla da organização criminosa
    Integrantes da FDN costumam tatuar a sigla da organização criminosa | Foto: divulgação


    PCC – Além de alguns integrantes do PCC tatuarem a sigla da facção, também é comum tatuarem o número 1533. Os números significam a posição das letras do alfabeto formando a sigla PCC, sendo que o número 15 representa a letra P e o número 3 representa a letra C. A carpa, escorpião e Yian Yang também indicam integrantes do PCC.

    Os números significam a posição das letras do alfabeto formando a sigla PCC
    Os números significam a posição das letras do alfabeto formando a sigla PCC | Foto: divulgação/JP


    Comando Vermelho – Criminosos vinculados ao CV, costumam tatuar a sigla CVRL em homenagem ao fundador da facção no Rio de Janeiro. No Amazonas, alguns integrantes da facção tatuam um G com uma coroa indicando uma homenagem ao traficante Gerson Carnaúba, o ‘Mano G’.

    A sigla CV é em homenagem ao fundador da facção
    A sigla CV é em homenagem ao fundador da facção | Foto: divulgação


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