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    1 mês após massacre


    Irmã de detento morto diz que 'cadeia no AM é faculdade para o crime'

    “Eu deixei até de ver as redes sociais, pois muita gente comenta que todos os detentos deveriam morrer. Mas quem tem um parente lá dentro, por pior que seja, acredita que ele vá sair de lá diferente", relata a mulher

    “Quando eu vi a imagem deles, ali no pátio do complexo, eu observei os pés e vi que era ele. Foi uma cena horrível, que jamais vou esquecer” frisou a mulher
    “Quando eu vi a imagem deles, ali no pátio do complexo, eu observei os pés e vi que era ele. Foi uma cena horrível, que jamais vou esquecer” frisou a mulher | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - “Eu já passei por várias coisas ruins. No entanto, depois do que aconteceu, a dor é a pior que já senti até hoje”. A afirmação é de uma vendedora, uma mulher de 41 anos, irmã de um dos detentos que morreram durante os dois dias do último massacre nos complexos penitenciários do Amazonas, nos dias 26 e 27 de maio. 

    A vendedora, que preferiu não se identificar,  disse ao Portal Em Tempo, nessa quarta-feira (26), que espera das autoridades do sistema prisional a elaboração de projetos de ressocialização e melhorias na segurança dentro dos presídios.

    Conforme a vendedora, o irmão cumpria o restante da pena em regime fechado no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), localizado na BR-174 (Manaus/Boa Vista), e que o interno já estava, inclusive, com o alvará de soltura. Emocionada, ela relata que ao obter as imagens dos detentos mortos no domingo, dia 26 de maio, reconheceu o irmão.

    A irmã do detento espera das autoridades do sistema prisional, a elaboração de projetos de ressocialização e melhorias na segurança dentro dos presídios
    A irmã do detento espera das autoridades do sistema prisional, a elaboração de projetos de ressocialização e melhorias na segurança dentro dos presídios | Foto: Leonardo Mota

    “Quando eu vi a imagem deles, ali no pátio do complexo, eu observei os pés e vi que era ele. Foi uma cena horrível, que jamais vou esquecer”, frisou a mulher, acrescentando que a família não recebeu nenhum tipo de assistência das autoridades do Estado.

    A familiar afirma que, por desconhecer as causas da chacina, temeu comparecer ao velório do interno. “Na verdade, a gente não pôde nem velar o nosso irmão direito. Tivemos medo de que aparecesse alguém atirando. Sabemos que houve um ‘racha’ dentro de uma facção, mas não temos como saber o que é verdade ou o que é mentira. Acreditamos que nem ele mesmo sabia o porquê do incidente”, enfatizou.

    Ao conversar com o irmão, antes do massacre, a vendedora relembra que ele falava sobre planos que seriam colocados em prática quando saísse da prisão. 

    “Eu deixei até de ver as redes sociais, pois muita gente comenta que todos os detentos deveriam morrer", diz a mulher
    “Eu deixei até de ver as redes sociais, pois muita gente comenta que todos os detentos deveriam morrer", diz a mulher | Foto: Leonardo Mota

    “Eu deixei até de ver as redes sociais, pois muita gente comenta que todos os detentos deveriam morrer. Mas quem tem um parente lá dentro, por pior que seja, acredita que ele vá sair de lá diferente. E o meu irmão me dizia que iria criar a filha dele, então é muito ruim saber que ele não vai voltar mais”, afirmou a mulher.

    De acordo com a autônoma, a participação dos familiares no processo de ressocialização dos internos é fundamental e que, dentro dos complexos prisionais, muitos detentos são abandonados pelos parentes. “Nós nunca o abandonamos. Tudo o que a gente podia fazer por ele, a gente fez. Nós, como irmãs, assumimos o papel de mães. Muitos são desprezados lá dentro e, por isso, o coração deles se enche de raiva e de coisas ruins”, disse.

    Ela afirma ainda que o irmão sofreu com tuberculose dentro do presídio e que era impedida de levar medicamentos ao interno. “Muitas pessoas dizem que a quando a pessoa vai para a cadeia, fica descansando, só comendo e bebendo, mas não é bem assim. A família que convive com essa realidade vê que, em época de revista, a polícia bate, a comida não é boa e o único medicamento que deixavam entrar lá era dipirona. Eles não são tratados como seres humanos”, denuncia a vendedora.

    Conforme a autônoma, o atual cenário dos complexos prisionais requer das autoridades iniciativas para que outros massacres não aconteçam
    Conforme a autônoma, o atual cenário dos complexos prisionais requer das autoridades iniciativas para que outros massacres não aconteçam | Foto: Leonardo Mota

    Conforme a autônoma, o atual cenário dos complexos prisionais requer das autoridades iniciativas para que outros massacres não aconteçam. “O preso não tem nenhum projeto, nenhum trabalho. Não tem com o quê ocupar a mente. A cadeia é uma faculdade para o crime. O que eles não sabem aqui fora, aprendem lá dentro. Eu espero que os governos Federal e Estadual implementem projetos para que outras famílias não passem pelo que a gente passou”, concluiu.

    Administração

    Em relação aos projetos de ressocialização, a Secretaria de Administração Penitenciária (Seap) disse ao Portal Em Tempo que atualmente todas as unidades da capital e do interior oferecem cursos de ressocialização, como a remissão pela leitura e estudo, cursos técnicos nas mais diversas áreas, tais como: pintura predial, elétrica predial, instalação e manutenção de ar-condicionado, jardinagem, marcenaria, padaria, entre outros.

    Na atual gestão, a Seap diz que "não mede esforços para oferecer aos detentos o maior número de oportunidades para que usufruam do direito ao trabalho e à dignidade da pessoa humana, fazendo valer a Lei de Execução Penal (LEP) no seu artigo 32, que prevê a oferta de capacitação profissional àqueles que estão sob sua custódia".

    Sobre a indenização dos familiares das vítimas, o Portal Em Tempo entrou em contato e aguarda o posicionamento do Governo do Estado. No entanto, até a publicação desta matéria não houve respostas.

    Edição: Isac Sharlon

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