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    Vida criminosa


    Em busca de poder, mulheres recorrem ao crime e são mortas em Manaus

    As mulheres que se envolvem com o crime pagam caro pela ousadia. Na maioria dos casos, o pagamento é com o próprio sangue

    Jovem assassinadas em Manaus, entre 2019 e inicio de 2020
    Jovem assassinadas em Manaus, entre 2019 e inicio de 2020 | Foto: Reprodução EM TEMPO

    Manaus  - Viver perigosamente é quase como um bordão nas comunidades de Manaus. Homens sempre foram os alvos das organizações criminosas, mas esse cenário mudou ao longo dos últimos anos. Mulheres estão sendo recrutadas pelas facções. Elas são treinadas para matar, traficar e gerenciar ações criminosas. 

    Casos recentes mostram essa atuação na capital amazonense. Com apelidos que enaltecem o poderio delas dentro do crime, as “blindadas” – como são chamadas pelos próprios criminosos – ganham as manchetes dos jornais com participações em diversos crimes. Entre os casos mais repercutidos em 2019  foi o da “Barbie do Tráfico”. Jovem, bonita e com todas as oportunidades de se tornar quem quisesse ser, Fernanda Caroline Chaves Pinho, de 25 anos, decidiu seguir por um caminho diferente. Segundo a polícia, ela incorporou o clichê do crime: Fernanda vivia perigosamente. 

    Além de estar envolvida com a prostituição, Barbie era responsável por atrair traficantes rivais para a morte. Fazer a “casinha”, como é conhecida a forma de atrair um alvo, é um dos primeiros modus operandi realizado pelas mulheres dentro do crime. Fernanda não teve a oportunidade de sair ilesa. Ela foi executada a mando de traficantes em frente de uma boate no Centro de Manaus em setembro de 2019.

    A Barbie foi presa várias vezes e fazia "casinha" para atrair rivais
    A Barbie foi presa várias vezes e fazia "casinha" para atrair rivais | Foto: Reprodução

    Inserida na prostituição pela amiga "Barbie do Tráfico", Beatriz Lacerda, de apenas 20 anos, foi encontrada morta na madrugada do último domingo (2), em uma área de mata na Colônia Japonesa, no bairro Novo Aleixo, Zona Norte de Manaus. A jovem foi executada com sete tiros. 

    Beatriz foi morta com sete tiros
    Beatriz foi morta com sete tiros | Foto: Divulgação

    O primo de Beatriz contou ao Em Tempo que ela era uma jovem ousada e que não tinha medo de nada. Além disso, Beatriz era usuária de drogas e frequentava casas noturnas no bairro Centro, Zona Sul de Manaus, para conseguir clientes. O crime pode se tratar de um acerto de contas relacionado ao tráfico de de drogas.

    Outro Caso

    No mês de novembro, o que mais se perguntava era: “onde está Alice Lima?”. A adolescente de apenas 16 anos desapareceu após receber uma ligação. Um telefonema, que segundo a família, lhe custou a vida. Segundo a polícia, Alice foi sequestrada e morta por traficantes da comunidade União da Vitória, no bairro Tarumã-Açú, Zona Oeste de Manaus. 

    O corpo de Alice foi encontrado no dia 4 de dezembro de 2019, enterrado em uma cova rasa naquele mesmo bairro. Como forma de represália, os criminosos tiveram a audácia de mandar um vídeo para os familiares dela onde a jovem aparece morta. “É ela, não temos dúvida”, contou um dos parentes de Alice ao Em Tempo durante as buscas pelo corpo na comunidade União da Vitória. 

    Estes casos mostram o fim de quem decide ter uma vida criminosa. A morte é o último estágio. Entretanto, antes disso, muitas garotas são expostas a sessões de torturas por desobedecerem aos “chefões do tráfico”. No final de outubro deste ano, dois vídeos revelaram como atuam os traficantes no bairro Mauazinho, zona Leste de Manaus.

     “Quem desobedece, morre. Quem deve, apanha”, disse o delegado Jeff MacDonald, titular do 29º Distrito Integrado de Polícia (DIP), durante a divulgação das imagens.

    A adolescente Alice Lima de apenas 16 anos desapareceu após receber uma ligação
    A adolescente Alice Lima de apenas 16 anos desapareceu após receber uma ligação | Foto: Reprodução


    Nas duas filmagens distintas, duas mulheres aparecem apanhando com “palmatórias”. A correção teria sido dada e filmada pelos próprios criminosos. Em um dos casos, Monalisa Souza, de 22 anos, também conhecida como ‘Barbie do Mauazinho’, supostamente não tinha repassado o valor da venda de drogas aos membros da Família do Norte (FDN). A agressão seria apenas um aviso, caso ela não “entrasse na linha”.

    De acordo com o delegado Sinval Barroso, diretor do Departamento de Repreensão ao Crime Organizado (DRCO), a globalização e os benefícios do capitalismo influenciam e incentivam a participação dessas mulheres no mundo do crime. 

    “Existe uma série de fatores que corroboram para essa situação. A primeira que eu consigo notar é uma doença social que toda a sociedade está vivenciando. Essas mulheres almejam coisas e vislumbram, por exemplo, terem roupas de marcas, grifes, joias ou carros de luxo. Elas querem viver bem e a maioria não quer lutar para conseguir isso. A vida criminosa se demonstra uma forma fácil, tudo por conta da globalização. Mas isso é um engano, já que sabemos para qual caminho essa vida bandida leva”, conta o doutor.

    Monalisa foi submetida a uma sessão de palmatórias
    Monalisa foi submetida a uma sessão de palmatórias | Foto: Reprodução


    Para o delegado, a globalização influencia na conduta de pessoas que vivem em busca dessas realizações, principalmente, aquelas que optam pelo “caminho mais fácil”.

    “Elas buscam os meios ilícitos para alcançar sucesso na vida. Isso é uma realidade das mulheres e dos homens, claro. Se repararmos, nos filmes é comum a gente ver a inversão de valores. É sempre o ‘mocinho’ contra o ‘bandido’, fazendo parecer que só existem dois lados. Mas vale lembrar que isso deve ocorrer somente na tela do cinema, e não na nossa sociedade. Por conta desse espetáculo sensacionalista do crime, a pessoa acha que vai ter um final feliz ou que vai viver uma vida de luxuria. Só que essa necessidade de pertencer a uma facção para ter ‘direito’ a isso é uma distorção da realidade”, explicou a autoridade policial.

    Sinval Barroso disse que as pessoas precisam fazer boas escolhas e fez um alerta sobre romantizar o crime.

    “O conselho que eu dou é que essas pessoas saiam dessa situação porque o crime só vai levá-las à morte prematura.  Nunca haverá sonho concreto realizado. Participar desse mundo criminoso é uma escolha altamente equivocada, é a banalização da vida. Então peço que a sociedade fique do lado correto, que é ao lado da polícia. Não romantize o crime!”, relatou a autoridade policial. 

    Mulheres no topo do poder

    Investigações realizadas pelas forças de segurança mostram que são as mulheres dos líderes das facções que levam as ordens dadas pelos maridos presos aos soldados do tráfico. A operação Guará, realizada em julho passado, por exemplo, demonstrou que a irmã do José Roberto Fernandes, o “Zé Roberto da Compensa”, Maria Cleia Fernandes Barbosa, articulou ações que resultaram em uma série de mortes dentro do sistema prisional amazonense.

    Na ocasião, ela jogou a facção contra um dos parceiros do irmão na organização, o João Pinto Carioca, o “João Branco”, ao citar a mulher dele, Sheila Maria Faustino Peres, que também é apontada como uma das líderes do tráfico. A última poderosa do tráfico a ser presa foi Luciana Uchoa Cardoso, de 36 anos, mais conhecida como “Estrela”.

    "A poderosa chefona"

    Luciana é mulher do traficante Marcos Pará e comandava as bocas da zona Centro-Oeste
    Luciana é mulher do traficante Marcos Pará e comandava as bocas da zona Centro-Oeste | Foto: Divulgação


    Mulher de um dos maiores traficantes do Estado, o “Marcos Pará”, Luciana atua em diversas frentes criminosas. De ordem para execução ao roubo de carro, ela também possui em sua ficha criminal envolvimento com clonagem de cartões de crédito. Ela foi presa no dia 11 de novembro de 2019, junto com Cristiano Lima Martins, 34.

    Segundo a polícia, “Estrela” comanda bocas de fumo de várias regiões da cidade. “Ela é respeitada pelos aliados e temida pelos adversários”, relatou uma fonte ao Em Tempo.

    As polícias civil e militar atuam de forma conjunta para investigar a atuação das facções no Amazonas, principalmente, no que se refere à atuação das mulheres. Atualmente, elas têm ganhado espaço dentro das organizações, mas ainda passam despercebidas pela maioria. As “blindadas” coordenam, treinam e executam funções fundamentais dentro do grupo criminoso. 

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