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    Mistério


    ‘Caso Bruno’: sumiço completa sete meses e intriga a família

    Bruno Vasconcelos de Almeida sumiu após uma abordagem envolvendo policiais militares na Zona Sul de Manaus. Em entrevista ao Portal Em Tempo, a mãe Adalgiza Almeida fala da dor e da angústia na busca por respostas que levem ao paradeiro do corpo do filho

    Na madrugada da abordagem policial, Bruno dirigia um carro modelo Peugeot 207 Passion - o veículo nunca foi localizado | Foto: Divulgação

    Manaus - "O que mais corta meu coração é ouvir meu neto dizer que está com muita saudade do pai". A frase a seguir foi dita, esta semana, pela doméstica Adalgiza Vasconcelos de Almeida, de 59 anos, mãe do desaparecido Bruno Vasconcelos de Almeida. O autônomo sumiu na madrugada do dia 13 de junho de 2019, durante uma abordagem envolvendo policiais militares da Força Tática, da Polícia Militar do Amazonas (PM-AM). Nesta quarta-feira (21), são exatos 224 dias sem respostas sobre o paradeiro do corpo do amazonense. 

    Na noite do desaparecimento, Bruno dirigia o carro modelo Peugeot 207 Passion, de cor branca e placas OAN-4D38.

    No último dia 13 de janeiro, o caso completou sete meses e a localização de Bruno e o paradeiro do carro continuam um mistério, pelo menos para a família - que precisa constantemente visitar a Delegacia Especializada em Ordem Polícia e Social (Deops), da Polícia Civil do Amazonas (PC-AM), e o Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM) em busca de respostas. 

    Além dos seis policiais investigados por suspeita de envolvimento no desaparecimento de Bruno, as outras únicas pessoas a verem o autônomo ainda com vida, na noite de 13 de junho de 2019, foram cinco testemunhas - conforme revelou ao Portal Em Tempo a mãe do autônomo. 

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    "Tenho cinco testemunhas, que não falam porque foram ameaçadas. Elas também foram abordadas naquela noite e levadas para o mesmo local: uma mata. Dois deles viram o Bruno sendo torturando pelos policiais. Não tem como eu provar porque é a palavra deles contra a minha, já que na delegacia eles dizem que não viram nada", confidenciou a mulher, que, por orientação de advogados, preferiu não revelar os nomes das testemunhas e também foi proibida de falar a identificação dos policiais investigados. 

    Impotência

    Até esta quarta (21), são 224 dias sem qualquer notícia sobre Bruno. Para a mãe, são dias de angústia, dor e sensação de impotência. 

    "Angustia, porque quero respostas e já espero por isso a tanto tempo. Dor, por saber que meu filho não teve o direito de defesa e até hoje eu não encontrei o corpo para dar a ele um velório digno. Impotência, porque não posso fazer nada - pois tenho medo de atrapalhar alguma coisa, tentar falar, ir para a mídia e prejudicar as investigações que tanto me prometem. Afinal, todos me dizem que o caso está em andamento e será elucidado", desabafa a doméstica. 

    Apesar de considerar o trabalho de investigação lento, Adalgiza diz que as autoridades alimentam a esperança de que o caso não está parado. "Vai demorar, porque é tudo muito lento", essa é a resposta que eu tenho tido deles.

    Respostas?

    Questionada se já ficou frente à frente com os seis PMs investigados no desaparecimento do filho, a doméstica diz que o encontro nunca aconteceu. O que Adalgiza explica é que, durante as audiências, é passada a ela alguns comportamentos adotados por eles. 

    "Nas audiências, eles só baixam a cabeça e ficam o tempo todo calados", conta a mulher, aproveitando para cobrar explicações. "A gente precisa saber onde deixaram o corpo do meu filho. Não deram oportunidade para ele se defender e o mataram como se fosse um tipo de 'tribunal do crime'", acredita a mãe de Bruno.

    A esposa do desaparecido, Jaqueline de Melo, alimenta o sentimento de revolta. "Ultimamente meu filho sentiu muito a falta do pai. Às vezes eu sinto ódio dos policiais, que ficam calados. É revoltante você ver a mãe sofrendo, por não ter respostas sobre o paradeiro do filho único e não poder dar um enterro digno", desabafa.

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    Jaqueline acredita que o companheiro foi morto na madrugada em que desapareceu. "Foi assassinado naquela noite, não resistiu à tortura. Recebemos algumas ligações anônimas, mas até agora nada exato sobre a localização do corpo. Enquanto não encontrarmos alguma coisa dele, não temos como pensar em velório", frisa.

    A mãe de Bruno disse que ainda não amadureceu a ideia de fazer um funeral do filho. "A ideia não foi minha, e sim de várias pessoas que me dizem isso. Eu confesso que não amadureci a ideia. Vou esperar a vida toda, nem que seja só o pó, quando eu encontrar. Não vou perder a esperança. No começo, eu queria muito encontrar, para enterrá-lo, mas, agora, eu quero para fazer Justiça", promete a doméstica. 

    Sonho frustrado 

    "Vivi o primeiro fim de ano sem o meu único filho. Meu Deus, foi muito triste! Meu neto chorando no dia do Natal com saudades do pai". Enquanto dizia a frase ao telefone, a voz da doméstica foi ficando cada vez mais tremula indicando que o choro viria em seguida - o que de fato aconteceu.

    "Só quem é mãe e teve um filho desaparecido sabe o que eu estou passando. Nada justifica! Não existe pena de morte no Brasil. Eles [policiais] mataram e condenaram o meu filho sem o direito de defesa. São pessoas que a gente paga para nos dar segurança e acabam fazendo o contrário", desabafou Adalgiza aos prantos.

    A mãe de Bruno revela que continua rezando e orando todos os dias para alguém resolver o caso. "A Justiça vai ser feita pela divindade, porque a dos homens é muito precária", lamenta ela, destacando um dos sonhos do neto. "Meu neto queria ser policial, mas aí veio a polícia e tirou a vida do pai dele. Como é que ele vai lutar por esse sonho?", questiona. 

    Ameaças e o medo

    Adalgiza conta que a família nunca chegou a ser ameaçada diretamente, mas que o medo de algo ruim acontecer não é descartado - visto que os parentes e amigos próximos de Bruno continuam a cobrar a polícia sobre respostas que possam esclarecer o sumiço. Quanto às testemunhas, a doméstica diz que a situação é diferente.

    "Tenho cinco testemunhas, que não falam porque foram ameaçadas. Eles também foram abordados naquela noite, levados para o mesmo local, onde o meu filho também foi levado: uma mata. Dois deles viram o Bruno, presenciaram os policiais torturando ele. Não tem como eu provar! É a palavra deles contra a minha, pois na delegacia as testemunhas dizem que não viram nada", lamenta a doméstica. 

    A mãe de Bruno conta que, sem estarem na presença da polícia, as testemunhas contam que são ameaçadas constantemente. "Todos eles contam que sofrem ameaças de que se falarem a verdade em juízo as famílias irão pagar com vidas. É falta de segurança, por isso não falam. Não foi oferecido nenhuma garantia a eles, que se falarem continuarão vivos. Eles têm certeza que serão mortos se a verdade vir à tona", revela. 

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    Uma das testemunhas, conforme a doméstica, mora na rua Barcelos, também no bairro Cachoeirinha, Zona Sul. Adalgiza conta que o homem é um dos mais perturbados com as ameaças que vem sofrendo. "Ele viu tudo, e conta que ficou muito ruim com o que eles [PMs] fizeram com o meu filho. Mas diz que teme pela vida, então não fala nada em depoimento", explica. 

    "Eu não estou generalizando toda a polícia. Estou falando de seis policiais, me referindo à abordagem policial e o envolvimento deles no sumiço do meu filho", ressalta Adalgiza.

    Polícia

    Em nota, a assessoria da PC-AM informou que a delegada Catarina Torres, à frente do caso, continua empenhando equipes da Deops em diligências afim de localizador Bruno Vasconcelos de Almeida. "Mais informações não poderão ser repassadas para não comprometerem as investigações em torno do caso". 

    Diferente do que noticia no dia a dia com a prisões durante abordagens policiais, em que não trata o preso como suspeito do crime, a PM-AM informou, em nota, que "cumpriu, no dia 11 de julho de 2019, o mandado judicial que determinou a prisão preventiva dos militares da Força Tática, ‘supostamente’ envolvidos no desaparecimento". 

    A instituição ressaltou, ainda, que os seis PMs foram "afastados de suas funções e estão recolhidos nos quartéis da Corporação, onde permanecem aguardando decisão judicial". 

    A Corregedoria Geral do Sistema de Segurança informou que um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado e, após sua conclusão, encaminhado à Justiça Militar. "Na Corregedoria, foi instaurado um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) para avaliar se os PMs reúnem condições de permanecer na PMAM. Esse PAD está em fase de conclusão".

    Os nomes dos policiais não foram divulgados pela Secretaria de Segurança Pública do Amazonas. 

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