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    Comando Vermelho


    Comando Vermelho domina mais de 80% dos bairros de Manaus

    Novo Rio de Janeiro? CV quer tornar Manaus 'vermelha'. Guerra de facções tem se alastrado por Manaus e a população já diz sentir medo similar ao que domina o RJ

    Interesse do crime organizado saiu da cidade maravilhosa, atravessou o Brasil e se alojou no meio da floresta amazônica | Foto: Lucas Silva

    Manaus - “Você acha que vai sofrer um assalto a qualquer momento. Se for ao ponto de ônibus, o caminho até lá é uma tortura. Olha para todos os lados com medo. A sensação é que a morte vai chegar a qualquer momento por conta do perigo". A fala é de uma amazonense que mora no Rio de Janeiro há cinco anos, mas descreve muito bem a aflição que tem tomado moradores da capital do Amazonas. A cidade é atual palco da guerra entre as facções Família do Norte (FDN) e Comando Vermelho (CV). Ao que parece, o interesse do crime organizado saiu da cidade maravilhosa, atravessou o Brasil e se alojou no meio da floresta amazônica.

    A bandeira vermelha foi hasteada com um áudio gravado de dentro de um presídio de Manaus e divulgado em massa na capital, no dia 10 de fevereiro. "Vermelhou, mano. Vermelhou", diz um detento, na gravação. No mesmo dia, foguetes foram ouvidos por toda a cidade de Manaus. A população, que já não associa foguetórios somente com o Ano Novo há tempos, sabia que era algo relacionado ao tráfico de drogas. "Fogos de artifício em todos os bairros. Traficantes comemorando o fim da facção rival. Manaus virou Gotham City sem Batman", escreveu um perfil no Twitter, no mesmo dia.

    Wallemberg foi morto com mais de dez tiros em frente a uma pichação do CV
    Wallemberg foi morto com mais de dez tiros em frente a uma pichação do CV | Foto: Kennedson Paz

    Desde então, a capital do Amazonas tem registrado um crescimento no número de mortes associadas à guerra de facções. Uma das mais recentes foi a de Wallemberg Vieira Bello, de 31 anos, em um beco no bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus. Ele foi morto com mais de dez tiros na manhã de quinta-feira (13), ao sair para comprar pão e se deparar com um grupo de homens do Comando Vermelho. Na tarde do mesmo dia, um vídeo do momento circulou nas redes sociais. 

    Além dos assassinatos, o Comando Vermelho tem 'pintado' a cidade com a cor do sangue por diversos bairros. Pichações com os escritos 'CV-AM', 'Mano G', 'TD2' e 'Tropa do Mano G', têm se tornado verdadeiros aviso de perigo. Todas as siglas representam chefes do tráfico do comando Vermelho. Um deles, o traficante Gelson Carnaúba, um dos líderes do CV, que já foi da FDN.

    As pichações estão dentro e fora da unidade educacional
    As pichações estão dentro e fora da unidade educacional | Foto: Naylene Freire

    Até mesmo espaços públicos estão sendo marcados com pela facção 'vermelha'. No bairro Nova cidade, Zona Norte de Manaus, Até mesmo uma escola foi marcada pela facção, que se originou no Rio de Janeiro e agora está de mudança para o Amazonas.

    A socióloga Raimunda Araújo (nome fictício a pedido da especialista) comenta o medo que tem envolvido Manaus. "Estamos sendo transformados em um grande morro do Rio de Janeiro. Eu lembro de um texto do psicanalista Freud, chamado 'mal-estar da civilização', porque a gente acaba se trancando na nossa casa, já que o Estado não tem mais força. No dia que houve a queima de fogos em Manaus, a sensação foi que os traficantes eram os donos da cidade", diz a especialista.

    Ela lembra das grandes rebeliões que aconteceram em presídios nos últimos dois anos, no Amazonas. Para ela, a mensagem é clara. "Eles [os traficantes] estão nos inibindo, ao ponto de dizerem 'nós estamos aqui e vamos acabar com todo mundo', e isso já tem se normalizado. Crianças que moram em comunidades carentes têm visto corpos sendo retirados das ruas todos os dias e já acham que é uma realidade normal, comum", afirma a socióloga.

    Ruas do Centro de Manaus já estão com as pichações
    Ruas do Centro de Manaus já estão com as pichações | Foto: Lucas Silva

    A guerra de facções tem sido a pauta da vez na cidade. Na Câmara Municipal de Manaus, o vereador Chico Preto (Democracia Cristã) cobrou mais vigor das forças de segurança na repressão ao crime organizado. "Bandido não tem que respeitar a polícia, tem que ter medo".

    Em entrevista ao Em Tempo, o vereador frisou a necessidade de reforçar que a guerra não é problema de agora. "Só se agravou agora, mas já existia. Hoje, infelizmente, Manaus vive sob o medo. E até entendo as questões orçamentárias que podem inviabilizar o aumento da tropa ou a compra de equipamentos. Mas, se não há dinheiro, temos que ter inteligência", afirma o vereador. Para ele, um policial deve estar munido de informação e um trabalho sério de estratégia.

    Manaus vermelha

    Imagem recuperada em um celular pertencente a um integrante do CV
    Imagem recuperada em um celular pertencente a um integrante do CV | Foto: Divulgação

    Ainda em janeiro de 2020, o Comando Vermelho ganhou o noticiário nacional quando perdeu cinco integrantes, que foram mortos no bairro Colônia Oliveira Machado, em confronto com policiais militares.  Segundo reportou o Em Tempo, o tiroteio aconteceu após a polícia interceptar o bando, que estava preparado para invadir uma boca de fumo no Beco da Bomba, no bairro. O local pertence à Família do Norte. A ação, já no início do ano anunciou o presságio que tomaria a cidade. Manaus começava a se tornar vermelha de sangue. 

    Voltando ao dia 10 de fevereiro, enquanto fogos de artifício explodiam pelo céu da capital do Amazonas, circulou por grupos de WhatsApp uma lista não oficial com bairros já dominados pelo Comando Vermelho. Segundo a mensagem, 80% da cidade de Manaus já 'pertence' à facção.

    Fontes policiais (civil e militar) confirmaram ao Em Tempo a porcentagem. "O que ainda temos em Manaus são três células do PCC (Primeiro Comando da Capital), e agora a dominação em massa do CV. Cerca de 80%", relatou a fonte. 

    Segundo ela, hoje a FDN está praticamente extinta. "O que aconteceu foi que todos os bairros foram convertidos pelo CV. Quem era da FDN está sendo chamado para 'ser vermelho', ou sendo morto. Ainda tem uns que estão fugindo do Estado, ou por não quererem se juntar ao CV ou com medo de serem executados", diz a fonte.

    Aparecida, Centro, Matinha, Vila da Prata, Cidade de Deus, Ouro Verde, Santa Etelvina e outros. Esses são alguns dos bairros já dominados pelo Comando Vermelho, segundo fontes policiais. Eles atribuem a 'extinção' da FDN à posição da facção em focar no lucro pela venda da droga. "O CV é muito mais contra o Estado. São bem mais violentos também. Matam, e fazem isso brutalmente. A FDN já estava num patamar mais 'tranquilo', porque eles focavam em lucrar com tráfico, sem muitos embates. Por isso também que perderam os territórios tão rápido", disse outra fonte da polícia. 

    Em mensagem disparada pelo WhatsApp e atribuída ao Comando Vermelho, a facção, porém, atribuiu a violência ao grupo rival, a FDN. Leia: 

    "

    Viemos aqui por meio deste salve para deixar todos que são criminosos e vivem essa vida que a partir de hoje não aceitaremos mais os roubos em (ônibus, uber, moto taxi, celular de pedestre, igrejas, estudantes, trabalhadores,) e toda classe de baixa renda que se enquadra ai em cima, pois o CV-AM veio para trazer a paz a justiça e a liberdade não para tirar de quem não tem [...] assim também como não queremos mais derramamento de sangue dentro dos sistemas [prisionais], pois sistema é lugar para pagar o que deve e isso não se paga com a vida ,meus irmãos, essa ideologia era dos FDN, não do CV "

    Membro do CV, Comando Vermelho domina mais de 80% dos bairros de Manaus

    Entenda

    Assim como na história romana em que o imperador Júlio Cesar foi traído por seus parceiros, incluindo seu grande amigo Brutus, a Família do Norte somou inúmeras rasteiras. Desde o início do ano, traficantes têm se convertido ao Comando Vermelho, que já anunciou por meio de 'salves' (mensagens disparadas pelo WhatsApp) a possibilidade de aceitarem novos integrantes. 

    "Queremos dizer aos bandidos que correm pelo certo e que ainda não fecharam com o CV-AM, que estamos aqui para ouvir todos e analisar caso a caso, se merece ou não merece uma oportunidade [de se juntar ao CV]", diz um trecho do 'salve'. 

    Em áudio que circula no WhatsApp, um traficante da FDN identificado como ‘Colombo’ lamenta ter sido traído por parceiros antes pertencentes à FDN e que migraram para o Comando Vermelho. Na mensagem, ele ainda promete tomar o local que lhe foi usurpado, o Coroado.

    "Deixa eu só passar uma visão aqui [...] vocês agiram pelas minhas costas [...] eu vou voltar para o Coroado, o Coroado vai ser FDN [...] ei, eu sou FDN até morrer, eu sou o Zé Roberto, eu sou o crime verdadeiro [...] Vocês agiram tudo na 'trairagem' comigo [...] Coroado 'vermelhou', meu irmão". 

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    "É muito fácil entrar numa facção"

    Ruas de Manaus com pichações
    Ruas de Manaus com pichações | Foto: Lucas Silva

    A frase é de um ex-traficante que preferiu não se identificar e que aceitou falar com a reportagem do Em Tempo. 

    "

    Na época em que eu me envolvi, em 2006, o CV ainda não era uma ameaça à FDN. Eu era jovem, tinha uns 14 anos. O que eu lembro é que a FDN era inimiga do PCC e por isso se aliaram ao Comando Vermelho. Só não esperavam que essa aliança ia virar uma guerra. Que o CV ia se virar contra a FDN "

    Ex-traficante, Comando Vermelho domina mais de 80% dos bairros de Manaus

    Segundo ele, que saiu do ‘mundo do tráfico’ em 2015, os integrantes das facções não se importam muito com os grupos, mas sim em estarem no meio do crime. "Já aconteceu comigo de ser de um grupo e depois ser forçado a virar FDN. Eu não ligava e nem outros integrantes, porque as facções sempre vêm com aquele papo de que são irmãos, e o jovem se ilude. Acha que faz parte de algo grande, mas basta um deslize para ser ameaçado de morte". 

    Comitê de Crise

    Na última segunda-feira (10), o governo do Amazonas instaurou o chamado gabinete de crise. Em coletiva de imprensa no mesmo dia, o Coronel Anézio Paiva, secretário adjunto da Secretaria de Segurança Pública (SSP) disse que a medida foi tomada após o sistema de inteligência do Estado detectar alterações. Uma delas, as brigas entre criminosos. 

    "O sistema integrado de inteligência monitora, hoje, tanto o sistema prisional quanto a rua. Então, qualquer alerta é enviado ao secretário. Qualquer atitude que foge à normalidade nos é avisado. E aí o governador decide se ativamos o comitê, como foi o caso". 

    Em outra coletiva na mesma semana, o vice-governador Carlos Almeida disse que medidas estão sendo tomadas para combater o aumento das disputas entre facções. "Há um trabalho permanente da segurança púbica. Convocamos esse comitê para que pudéssemos chamar a defensoria, o Ministério Público, os bombeiros, policiais e outros. Todos juntos agindo em prol da segurança da população", afirmou o governador interino. 

    Segundo ele, muitas das mortes registradas em Manaus entre janeiro e fevereiro foram em decorrência do crime organizado. Carlos ainda afirma que parte dessa 'rebelião' se deu após apreensões recordes do sistema de segurança, o que gerou conflitos entre as facções. 

    Quando perguntado sobre a Força Nacional ajudar a combater a violência, o governador interino disse que "nossas forças são suficientes por enquanto. Mas, se necessário, [o apoio federal] não será descartado". 

    Em reportagem publicada na quarta-feira (12), o jornal Folha de São Paulo divulgou pedido de resposta do Ministério da Justiça sobre a atuação do Centro Integrado de Inteligência de Segurança Pública Regional Norte (CIISPR-N), com sede em Manaus. A sigla foi criada em 13 de dezembro de 2019, com o foco de combater o crime organizado. 

    Segundo a Folha, a resposta do Ministério da Justiça se limitou a dizer que a pasta está "acompanhando os fatos em Manaus e avaliando as medidas mais eficazes para combater o crime organizado". 

    Na quarta-feira (14), um agente federal foi morto no Rio de Janeiro, e o carro em que estava foi pichado com a sigla CV
    Na quarta-feira (14), um agente federal foi morto no Rio de Janeiro, e o carro em que estava foi pichado com a sigla CV | Foto: Reprodução
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