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    CRIMINOSOS


    Piratas: perigo constante entre os rios da Amazônia

    O prejuízo registrado nos roubos cometidos em apenas um ano chega a quase R$100 milhões

    Barqueiros que atuam nas proximidades de Manaus costumam ser reféns dos chamados "ratos d'água" | Foto: Marcelo Cadilhe

    Manaus - Quem já assistiu a franquia "Piratas do Caribe" se deparou com fascinantes histórias de viajantes do mar, cheias de aventuras, perigos e paixões proibidas. No Amazonas, os chamados piratas também são encontrados, mas de uma forma bem diferente da ficção. Navegar pelos afluentes da região se tornou sinônimo de risco de vida para os donos de embarcações, comerciantes, ribeirinhos e até mesmo turistas.

    Os ladrões dos rios, chamados popularmente de "piratas", atuam em toda a extensão da bacia amazônica, tendo como foco principal o roubo de combustíveis, além do roubo de outros patrimônios (pertences pessoais e embarcações) e até mesmo substâncias entorpecentes.

    Dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) apontam que em 2016 e 2017 foram 28 ocorrências registradas de ações de piratas nos rios do Estado. No entanto, a  assessoria do órgão afirma que neste ano ainda não houve nenhuma ocorrência registrada.

    Segundo estimativas do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma), os prejuízos com furtos e roubos de combustíveis causam o rombo de aproximadamente R$ 100 milhões, anualmente.

    “Os roubos de combustíveis estão cada vez mais frequentes. As empresas que transportam esta mercadoria, ou mesmo aquelas que a utilizam para seu consumo, vêm sofrendo nos últimos tempos com o avanço das quadrilhas especializadas na compra de combustível desviado. Isto é muito visível, principalmente na rota do rio Madeira, onde há a maior perda no transporte desse combustível", explica o vice-presidente do Sindarma, Dodó Carvalho.

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    Uma das rotas preferidas dos piratas é a do município de Coari, por fazer parte da rota internacional de tráfico ligado à fronteira. Geralmente, os próprios tripulantes das embarcações são os alvos dos piratas, por serem os que levam os entorpecentes vindos de outros países para as cidades brasileiras "

    Mateus Moreira, Delegado titular da Delegacia de Policiamento no Interior (DPI)


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    Carvalho lembrou, ainda, do caso ocorrido em outubro do ano passado, quando uma quadrilha furtou mais 600 mil litros de gasolina no porto do Ceasa, na Zona Leste. Os prejuízos foram estimados em R$ 2,4 milhões.

    História de cinema

    Difícil de acreditar, e mais difícil ainda de viver, são as experiências de quem já foi vítima de algum gatuno de rio. Dono de uma embarcação de pesca, o cargueiro Frank Pereira, trabalha no porto da Ceasa há 18 anos, transportando cargas comerciais e pessoas nas proximidades da capital.

    Frank Pereira já foi vítima de piratas
    Frank Pereira já foi vítima de piratas | Foto: Marcelo Cadilhe

    "No meu terceiro ano de trabalho, em 2002, estava acontecendo, em todo o Estado, a campanha eleitoral, e as viagens eram constantes para os municípios. Um dia, momentos antes de zarpar, chegou um grupo de pessoas bem vestidas, dizendo que eram vereadores, pedindo viagem para Iranduba. Disseram que iam pagar quando o barco aportasse. Quando chegamos próximo a cidade eles revelaram a verdadeira identidade: eram todos piratas, prontos para roubar o barco e me matar", disse.

    Tirando uma artilharia pesada das bolsas, como fuzis, além de revólveres, anunciaram o assalto e levaram o cargueiro para o porão do barco, amarrando as suas mãos e também os pés. No começo, Pereira diz que eles bateram nele o suficiente para ele desmaiar. Três dias depois, ele acordou perto da unidade da Costa do Laranjal, no município de Manacapuru (distante 99,8 km de Manaus) no rio Solimões. Após gritar por ajuda, ele foi socorrido por moradores das proximidades do distrito.

    "Consegui sobreviver com o que achei no barco. Quando me desamarraram, vi que tinham esvaziado todo o barco. Voltei para Manaus e tive que continuar o trabalho, já que não tenho outra alternativa de renda para a minha família. Não denunciei, porque sempre que ligamos para a delegacia nunca chegam no local", relatou.

    Reféns de surpresa

    O estudante de Direito, Lucas Rodrigues, é original de Barcelos, distante 405 km de Manaus, e disse que os piratas não costumam atuar no rio Negro. Embarcações próximas a cidades como Novo Airão, Santa Izabel e mesmo Barcelos não são alvos frequentes de ataques, contudo, sempre há as exceções.

    Uma das rotas preferidas dos piratas é a do rio Solimões, próximo a Coari
    Uma das rotas preferidas dos piratas é a do rio Solimões, próximo a Coari | Foto: Marcelo Cadilhe

    O acadêmico conta que há alguns anos, alguns parentes estavam indo de Barcelos para Manaus, como costumavam fazer. No caminho, o barco recreio havia entrado na rota que liga a cidade de Novo Airão. Antes de ancorar na cidade, porém, dois barcos de motor (lanchas) surpreenderam a todos fazendo os tripulantes de refém.

    "Minha tia e meus primos estavam no barco, quando as duas lanchas interceptaram e subiram no recreio. No momento, alguns tripulantes que já estavam dentro se revelaram como parte da quadrilha. Haviam se camuflado somente para garantir o assalto. Revistaram todo mundo e mandaram ficar apenas com as roupas íntimas, para evitarem esconderem peças de valor. Depois mandaram descerem de um por um para o convés do barco, dando tapas em todos que passavam. Depois de irem embora, os tripulantes ficaram esperando por duas horas o resgate. Quando saíram, viram que os piratas tinham jogado vários pertences no rio, além de terem danificado a cabine de controle, em um ato de vandalismo. Foi uma situação que aconteceu apenas uma vez, mas que marca todos os que ouvem, especialmente os da família", admite.

    Roubos na fronteira

    Outra vítima, de dois assaltos nas hidrovias do Amazonas, o empresário de transportes de cargas e passageiros, André Luiz Peres, de 37 anos, conta que o primeiro aconteceu próximo às regiões de fronteira do Estado, entre Tabatinga e São Paulo de Olivença. “Cinco ladrões chegaram em um barco com motor de alta velocidade (baleeira). Eram pessoas bem armadas, procuravam o dono do barco. Levaram os pertences de todos”, explicou.

    Segundo estimativas do Sindicato das Empresas de Navegação Fluvial no Estado do Amazonas (Sindarma), os prejuízos com furtos e roubos de combustíveis causam o rombo de aproximadamente R$ 100 milhões, anualmente.


    A outra vez aconteceu a caminho do município de Coari, a 363 km de Manaus. “Os bandidos estavam atrás de uma droga que eles diziam ser de um traficante. A abordagem foi da mesma forma: barco de alta velocidade com fuzil e metralhadora. Os bandidos ameaçaram todos os funcionários. Ao perceber que a droga não estava no barco, eles levaram os pertences dos tripulantes. Todos os piratas estavam de cara limpa, sem máscaras”, finalizou.

    Rotas perigosas

    Os principais trechos onde ocorrem assaltos, segundo barqueiros e ribeirinhos, são o rio Solimões, nas proximidades de Coari; o rio Amazonas, no Estreito de Breves, no Pará; e o rio Madeira, entre Itacoatiara e Porto Velho (RO).

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    Além destas regiões, roubos frequentes à cargueiros, de grandes à pequenos, como balsas transportando petróleo a embarcações pequenas, levando fretes e outras mercadorias de baixo porte, são constantemente atingidas pelos também chamados "ratos d'água" - ladrões que cerceiam a região metropolitana de Manaus e que são especializados em assaltos.

    Os próprios tripulantes são os que levam as cargas de entorpecentes vindas da Colômbia
    Os próprios tripulantes são os que levam as cargas de entorpecentes vindas da Colômbia | Foto: Marcelo Cadilhe

    Segurança nos rios 

    O delegado titular da Delegacia de Policiamento no Interior (DPI), Mateus Moreira, diferencia as "classes de piratas" e explica como acontecem os crimes. "Fazemos em média quatro diligências nos arredores de Manaus semanalmente, como na Colônia Terra Nova, Zona Norte; no Puraquequara, Zona Leste; na Ponta Negra, Zona Oeste; e no porto do São Raimundo, Zona Sul. Os crimes que ocorrem na capital são relacionados principalmente ao crime patrimonial, em que furtos de pertences pessoais e embarcações são mais corriqueiros", ressalta.

    Crimes envolvendo organizações criminosas, como as facções de tráfico internacional de drogas, proveniente sobretudo da Colômbia, a partir de Tabatinga, acontecem nos municípios afastados da capital. Nesta definição, os ladrões da capital são chamados de ratos d'água, enquanto que os crimes de maior complexidade, nas regiões mais distantes de Manaus, são engendrados pelos piratas, geralmente atrás de drogas, armas e munições. 

    "Uma das rotas preferidas dos piratas é a do município de Coari, por fazer parte da rota internacional de tráfico ligado à fronteira. Geralmente, os próprios tripulantes das embarcações são os alvos dos piratas, por serem os que levam os entorpecentes vindos de outros países para as cidades brasileiras. É um roubo de drogas de outras facções e estas milícias são afiliadas a facções locais ribeirinhas ou, possivelmente, inimigas das que transportam as drogas", diz.

    Por ser uma região de difícil acesso e localização, Moreira defende que a baixa densidade demográfica dos municípios é um fator preponderante que limita o acesso da polícia, mas que toda denúncia de prováveis ataques são investigadas com afinco. "Como os piratas estão interessados em primeiro lugar nas drogas, não costumam fazer reféns, diferentes dos ratos d'água", argumenta.

    Medidas Preventivas

    Como medida para minimizar os crimes fluviais, a Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) deve inaugurar até o fim deste mês uma nova base fluvial de policiamento na região do Encontro das Águas para o combate ao tráfico de drogas, crimes de pirataria e contra o meio ambiente.

    A informação foi dada pelo vice-governador e secretário de segurança, Bosco Saraiva, ao reunir-se com o Comando do 9° Distrito Naval para acertar detalhes de uma cooperação técnica para integração da Marinha do Brasil ao projeto.

    Além disso, a base da Polícia Federal, denominada Anzol, foi reativada nos mês passado, após ter paralisado por falta de investimentos e recursos federais. A atuação se dá nos afluentes à Tríplice Fronteira, com o intuito de fazer o planejamento e o controle da entrada proibida de drogas pelas facções internacionais.

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