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    Entrevista


    ‘A impressão é que a ala militar tem sido a mais moderada’, diz Maia

    Em entrevista ao Em Tempo, Maia classificou de “briga idiota” a instabilidade e acusações entre militares e seguidores do pensador Olavo de Carvalho e falou sobre as interferências dos filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) no governo

    Maia é o principal articulador da aprovação da reforma da Previdência | Foto: Divulgação

    Manaus - Principal articulador da aprovação da reforma da Previdência, o deputado federal Rodrigo Maia (DEM) comenta que o governo abandonou o discurso de “nova política”. Além disso, classifica de “briga idiota” a instabilidade e acusações entre militares e seguidores do pensador Olavo de Carvalho e falou sobre as interferências dos filhos do presidente Jair Bolsonaro (PSL) no governo.

    EM TEMPO – O seu pai, Cesar Maia, é um quadro importante da política nacional (ex-prefeito do Rio). Se o senhor fizesse metade do que o Carlos Bolsonaro faz, qual seria a reação do seu pai?

    Rodrigo Maia – Olha, eu não gosto de falar como os pais cuidam dos seus filhos. Eu sei como eu cuido dos meus. E sei como é que o meu pai cuida dos filhos dele. Quando eu estou aqui e começo a falar algumas coisas que ele acha que está errado, ele só manda a seguinte mensagem: ‘Olha, Rodrigo, a gente não se falou nos últimos dias, mas, se você quiser conversar, quiser uma opinião, estou aqui à sua disposição’. Já entendi que fiz besteira. E eu, para entender qual besteira que eu fiz, vou ao Rio para entender. É assim que eu faço. Eu não sei como é a relação na família dele (Bolsonaro). As famílias têm relações distintas.

    O Bolsonaro colocou o filho com 17 anos para disputar contra a própria mãe. Ele derrotou a mãe na disputa para a Câmara Municipal. Isso deve ser normal na cabeça de um ser humano? Derrotar uma mãe com 17 anos? Isso deve ter gerado muito problema na cabeça do Carlos. A informação que eu tenho, apenas de ouvir falar, é que eles ficaram sete anos sem se falar, ele e o pai. E você vê que ele tem uma admiração enorme pelos filhos, diz que devia ser ministro, que só chegou à Presidência por causa dele. O que influenciou muito a eleição foi a facada que quase o matou. Se Bolsonaro achar que foi a internet que elegeu ele...

    EM TEMPO- O que achou da informação de que Carlos segurou a senha do Twitter e impediu o pai de acessar a rede?

    RM- Eu acho que pode ser verdade, você não acha? Não me parece verdade, mas eu não acho impossível ser. Eu até acho que não é, acho que o filho não vai a tanto. Ninguém fica preocupado com Carlos, todo mundo tem convicção de que o Bolsonaro é que comanda isso. E eu não acredito, e ninguém acredita mais que é o Carlos que comanda esse jogo. Alguém coloca aquilo do golden shower sem o pai ver? O filho pode ser doido à vontade, mas num negócio daquela loucura só com autorização do dono da conta.

    EM TEMPO- A briga dele com o Mourão atinge o Congresso ou a política no país?

    RM - Não acho que atrapalha muito, não. Mas temos que tomar cuidado para não entrar nessa briga. Quem vai investir no país e vê o filho do presidente batendo no vice questiona isso. Acho que pode gerar insegurança em alguns atores que estão mais distantes. Para quem está aqui perto, todo mundo sabe que é uma briga idiota.

    EM TEMPO- E o escritor Olavo de Carvalho? Ainda é um foco de crise?

    RM - Apesar de achar que ele influencia demais o Bolsonaro, as agendas dele. Acho que ele vai perder relevância. Com isso, acho que os militares ganham e o governo ganha na relação com a política, porque sai esse ambiente de radicalismo e de grosseria desse cara (Olavo) e do entorno dele. Minha impressão é que a ala militar tem sido a mais moderada.

    EM TEMPO- Como está a articulação do governo e a atuação do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni?

    RM - Melhorou muito. Ele (Onyx) compreendeu que, se ele não fizer articulação, ele vai cair, então ele começou a fazer articulação. Tem gente que quer cargo? Tem. Tem gente que quer orçamento para os seus Estados? Todos, inclusive os da oposição. Agora, não é só isso. Uma boa conversa no Palácio do Planalto traz muito voto. Eu vi deputado aqui na época do Michel Temer que eu falava: ‘não é possível, o Michel não fez nada para esse deputado, esse parlamentar está morto no Estado dele’… Mas recebeu para almoçar, levou para jantar no Jaburu e o deputado volta falando do presidente, que nós temos que votar e ajudar. E eu ficava: ‘meu Deus do céu’. Antes, ele estava mais distante,? Estava meio acanhado. Agora, também, escolheram um líder do governo na Câmara que dá dó.

    EM TEMPO- Na reforma do Temer foram 10 dias na CCJ. Por que agora demorou tanto?

    RM - É preciso entender que o Michel pegou o governo da metade para frente. É outro governo. Você pegar um governo no início, os deputados estão cheios de vontade de fazer coisa, de apresentar projeto, de mudar o Brasil, é difícil, é mais difícil para um novo governo, com parlamento novo e com ambiente um pouco mais radicalizado e com o cara não querendo articular, é difícil mesmo. E eu acho que eles cometeram um erro. Se eles tivessem cedido a CCJ para os partidos possíveis aliados, com o comprometimento de tirar a Previdência num prazo mínimo teria sido melhor. Para que o PSL queria a CCJ nesse momento? Se tivesse entregado para os partidos próximos à gente, cria um compromisso muito mais forte.

    EM TEMPO- Existe esse sentimento de que o deputado pode ajudar o governo hoje e ser abandonado no dia seguinte?

    RM - O governo sabe que precisa, e o Bolsonaro não é uma pessoa que deixa de cumprir a palavra. Ele não gosta de conversar, de fazer aliança. Mas a experiência que o próprio PP tem com ele é que toda a vez em que ele se comprometeu com o partido para fazer algo nas votações, ele fez. Ele nunca traiu a palavra dele, entendeu? Os partidos têm muita clareza de que, se o Bolsonaro falar ‘o caminho está dado, é assim, e vocês vão governar com a gente 4 anos’, ele vai cumprir. O PR conhece bem ele, o PP conhece bem ele.

    EM TEMPO- Qual o cenário de votação hoje da reforma da Previdência?

    RM - Não dá para dizer quantos votos, mas está longe.

    EM TEMPO - Aprova neste primeiro semestre?

    RM - Parece que está apertado. Mas são só duas semanas de recesso, tanto faz metade de julho ou início de agosto. Isso não é o mais importante, o mais importante é aprovar. Um mês, um mês e meio a mais ou a menos não vai tirar pedaço de ninguém.

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