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    Com a palavra


    ‘Fiz empréstimo pessoal para pagar a folha do Manaus’, diz Luis Mitoso

    Presidente de honra do Manaus FC, o ex-vereador Luis Mitoso conversou com o EM TEMPO e falou sobre a exitosa campanha do time na Série D do Campeonato Brasileiro, do qual foi vice-campeão e conseguiu o acesso à Série

    Luis Mitoso falou do diferencial do time amazonense | Foto: Ione Moreno

    Manaus - Presidente de honra do Manaus FC, o ex-vereador Luis Mitoso conversou com o Portal EM TEMPO e falou sobre a exitosa campanha do time na Série D do Campeonato Brasileiro, do qual foi vice-campeão e conseguiu o acesso à Série C. Ex-presidente do Nacional, Mitoso explica o porquê o Gavião do Norte conseguiu o feito que há mais de 20 anos nenhum outro clube amazonense conquistou.

    EM TEMPO – Em seis anos, o Manaus foi o clube amazonense com maior destaque em nível nacional. O senhor também já foi presidente de outro clube. Qual o diferencial do Gavião do Norte?

    Luis Mitoso – O diferencial é a vontade de acertar, de se projetar e fazer algo diferente. Temos muita determinação, vontade e fé. Eu estava num grande clube centenário e, por divergências, decidimos sair. Montamos então um novo clube, com uma nova história, do zero. O apelo foi botar um nome sugestivo, Manaus ou Amazonas, até para resgatar algo que estava esquecido no futebol, sem projeção. A Série D é muito difícil; são 68 clubes. Ficar entre os quatro é um feito memorável do Manaus e foi reconhecido pelos amazonenses.

    EM TEMPO – A escolha da cor foi uma forma de associar à nossa floresta? Não temos um time verde no Estado.

    Luis Mitoso – Acho que foi um mote legal. Também colocamos no escudo algo que representava a cidade. O que temos de mais importante, culturalmente falando, na nossa cidade? O Teatro Amazonas. Então comecei a desenhar o escudo pela cúpula do teatro e, recentemente, adicionamos o amarelo. Outra coisa foi a mascote. Escolhemos o gavião real, uma ave de rapina que habita na nossa floresta e é um predador.

    Presidente de honra do Manaus FC durante entrevista ao EM TEMPO
    Presidente de honra do Manaus FC durante entrevista ao EM TEMPO | Foto: Ione Moreno

    EM TEMPO - O senhor já foi político, sendo vereador em dois mandatos. Ainda tem pretensões políticas?

    Luis Mitoso – Sou político. Temos, hoje, a situação envolvendo a cassação de quatro vereadores da Câmara Municipal de Manaus. Como suplente, dependendo do recálculo de sobras e médias, eu poderia assumir uma das vagas, apesar de não esperar nada. Sou filiado a um partido. Meu nome estará à disposição, e o partido vai decidir. Acredito que o povo brasileiro está num crescente de saber escolher melhor, de não aceitar qualquer nome. Todos os candidatos devem ser bem analisados. Tenho um trabalho em oito anos como vereador e acredito que isso deve ser avaliado. A parte esportiva também pode ser, mas o político tem que ser avaliado como político.

    EM TEMPO – Você abandonou a política em detrimento ao futebol?

    Luis Mitoso – Não. Eu sou político. Não tem como dizer que deixei a política; sou suplente de vereador e do senador Omar Aziz. Uma coisa não elimina a outra. Futebol é uma coisa à parte, a política é outra, e as duas acabam se encontrando porque enquanto vereador durante 8 mandatos, fui presidente da Comissão de Esporte e sempre tive meu olhar voltado para o assunto.

    EM TEMPO – Nos três jogos finais do Manaus, contra Caxias, Jacuipense e Brusque, o clube conseguiu uma boa renda com bilheteria. Como será usado esse dinheiro?

    Luis Mitoso – Em benefício do Manaus. Tivemos muitas despesas esse ano, fomos às ruas vender rifas, fiz um empréstimo pessoal para pagar parte da folha do clube, mas sanamos todas as dívidas do Manaus. A renda obtida com a bilheteria será usada em benefício de uma estrutura voltada para a Série C. É um custo maior. Conseguimos fazer uma Série D com muito sacrifício num orçamento de R$160 mil/mês, mas jogamos com clubes com orçamentos maiores e renome nacional, como o Caxias do Sul, e superamos. Esse valor tem que ser tratado para planejamento da Série C, mas não é suficiente. Temos um calendário de 10 meses e precisamos fazer um planejamento voltado para dobrar esse valor se quisermos almejar alguma coisa. Se não der para subir, pelo menos nos manter na Série C. Futebol tem que ter dinheiro. Estamos em busca de renovar os patrocínios atuais, além de buscar novos.

    Luis Mitoso falou sobre o momento do Manaus FC
    Luis Mitoso falou sobre o momento do Manaus FC | Foto: Ione Moreno

    EM TEMPO – Temos no Polo Industrial de Manaus empresas multinacionais que não investem na cultura ou em times locais, mas patrocinam times de outros estados. Na sua opinião, o que as impede de investir no futebol amazonense?

    Luis Mitoso – Existe uma máxima no futebol amazonense que diz que os dirigentes são irresponsáveis e não usam o dinheiro adequadamente. Quebrei essa máxima porque enquanto estive presidente do Nacional, levei uma proposta para várias empresas do Distrito Industrial e disse que o diretor financeiro do clube seria o diretor financeiro da empresa que aportaria o recurso e todos os recursos que saíssem do clube teriam que ter a assinatura do diretor financeiro, que seria indicado pela empresa. Ninguém apareceu. Essa máxima não procede. Uma empresa que investe em times de São Paulo fiscaliza onde o dinheiro está sendo gasto? Não, porque o importante para eles é ter a marca à vista. Nosso modelo é o segundo polo industrial do Brasil e precisa corresponder, ajudar os clubes amazonenses e a cultura local. Estamos pedindo apenas 10% dos milhões que são investidos nesse eixo.

    EM TEMPO - A maioria dos jogadores e também o técnico ficarão sem contrato. O clube vai renovar com eles ou vai haver uma debandada?

    Luis Mitoso – Temos um acordo com jogadores, queremos ficar com a maioria deles, mas encerramos o contrato. Apenas três ou quatro tem contrato até 2022, como Jonathan e Vitinho, que são promessas e queremos investir. Mas de maneira geral, liberamos todos porque o contrato já havia acabado. Quero um tempo de pelo menos 30 dias para contactar os patrocinadores e buscar novos, para que seja feita uma prospecção e, em cima disso, seja feita a renovação e a contratação de jogadores novos. Não podemos colocar a carroça na frente dos bois. Há a possibilidade de perder alguns jogadores, mas não quero correr o risco de colocar a gestão sob descrédito. Tudo tem que ser feito com cautela. Ano que vem faremos tudo com os pés no chão.

    EM TEMPO – O Manaus tem um centro de treinamento?

    Luis Mitoso – Não. O que existe desde o começo é um espaço cedido a nós, a Fazenda São Pedro, que ajuda muito. No próximo ano, por ser um outro campeonato, precisamos dar melhores condições aos nossos atletas.

    EM TEMPO – Não existe a possibilidade da prefeitura ou governo construírem um CT para o clube?

    Luis Mitoso – Seria ótimo, não é? O Estado deveria fomentar todas as culturas. O futebol é a maior manifestação cultural do nosso povo. Por que não fazer um CT para um clube, disponibilizar um terreno? Gostaria muito que o Estádio Municipal Cláudio Zamith nos fosse disponibilizado para treinar. Seria excelente.

    EM TEMPO - O Manaus protagonizou um fenômeno ao movimentar torcedores e lotar a arena, coisa que não vimos acontecer em outros times. Na sua opinião, o que falta para que essa comoção atinja todos os times locais?

    Luis Mitoso – Trabalhar. Sempre digo que o dinheiro é bom e importante, não se faz futebol sem dinheiro, mas não é tudo. Você tem que colocar profissionais que não apenas gostem de futebol, mas saibam o que estão fazendo. É preciso colocar os profissionais certos nos lugares certos. Não adianta colocar um bom treinador se a lateral não está bem cuidada ou trazer um excelente jogador se não tiver um bom goleiro. Todas essas ferramentas têm que ser bem escolhidas, sintonizadas e preparadas. A cabeça do gestor, do presidente do clube, precisa entender isso.

    EM TEMPO – Quanto é a folha do Manaus hoje e quantas pessoas envolve?

    Luis Mitoso – O clube deve ter, em média, 50 pessoas envolvidas. A folha gira em torno de R$160 mil por mês.

    EM TEMPO – O que você pensa quando vê camisas de outros times em jogos do clube?

    Luis Mitoso – Sou um crítico quanto a isso. Quando o Vasco e o Botafogo vieram jogar aqui, cada um usou a camisa do seu time. Mas se o Manaus estiver jogando, vá com a camisa do Manaus. Caberiam camisas do Nacional, Fast ou Penarol porque são do Amazonas. Mas isso é algo enraizado, muita gente ainda desconhece a existência desses times locais e nós deixamos isso acontecer.

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