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    Alimentação


    Fome atinge 2,7 milhões de amazonenses durante pandemia

    Segundo o IBGE, o Amazonas está na segunda pior posição do país em relação à fome. Apesar de muitas propostas, o legislativo do estado não consegue aprovar medidas para combate à insegurança alimentar.

     

     

    este ano, um levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional (Penssan), aponta que 18% dos brasileiros em situação insegurança alimentar moram na região Norte.
    este ano, um levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional (Penssan), aponta que 18% dos brasileiros em situação insegurança alimentar moram na região Norte. | Foto: Divulgação

    Manaus - Nos últimos meses, a vida do cidadão amazonense não tem sido fácil. Com a crise da pandemia somada à maior cheia do rio Negro em 119 anos, impactos profundos foram sentidos em todos os âmbitos do estado. E após mais de 13 mil mortes por Covid-19, a população ainda enfrenta outro problema devastador: a fome. De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), pouco mais de dois milhões e meio de amazonenses estão em situação de insegurança alimentar, ou seja, não possuem garantia nenhuma de alimento para sua sobrevivência.  

    Em meio a todos os problemas de amparo social que as comunidades ribeirinhas enfrentam, os fatores naturais também estão se tornando mais um 'inimigo' da população à margem do rio. Neste ano, um levantamento feito pela Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania Alimentar e Nutricional (Penssan), aponta que 18% dos brasileiros em situação insegurança alimentar moram na região Norte. Para Francisco Gonçalves, morador de Ipixuna, a vida no município está complicada. Segundo ele, o presente dos idosos é triste, e o futuro dos mais jovens se torna cada vez mais incerto. 

    "

    Quando o rio enche de verdade, sempre dificulta as coisas por aqui, os peixes como a gente diz: somem. Esse ano aconteceu de ser a maior da história (cheia), então infelizmente nós praticamente ficamos sem poder pescar. Além disso, o vírus também levou muita gente que ajudava na pesca. Nossos pescadores mais velhos que sobreviveram, infelizmente, até hoje estão acamados "

    , lamentou.

     

    Ainda segundo Gonçalves, além da pandemia, outros fatores têm trazido dificuldades para a busca do pão de cada dia.

    "Também por outros motivos, como o fato a areia da praia não estar boa pra gente sair e pescar. Foram muitas coisas de uma vez, e os pais fazem o que podem para colocar comida na mesa. Agora que o rio já está baixando, ainda colocaram retroescavadeiras na praia, e não conseguimos pescar há meses pois o barulho assusta os peixes", disse. 

    O fator econômico

    As práticas de subsistência representam grande parte da alimentação dos ribeirinhos, e outras alternativas que poderiam complementar a dieta também ficaram inacessíveis. Conforme o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o preço de alimentos no país teve alta nos setores fundamentais na mesa do brasileiro: o quilo do arroz subiu quase 70%; o feijão-preto, 51%; a batata, 47%; a carne, quase 30%; leite, 20%; e no óleo de soja alta de 87%. O economista Leonardo Braule Pinto explica o que causa este fenômeno. 

    "O frete é um dos grandes motivos pelo aumento no preço dos alimentos no Amazonas.  Geralmente eles vêm por caminhão e a carne precisa de refrigeração. Quando não é caminhão, o frete vem por barco, e com a alta do preço dos combustíveis, nós automaticamente temos uma alta forte no valor dos alimentos. Como são produtos que não deixarão de ter demanda, o preço sobe ainda mais, porque quem está ofertando sabe da necessidade da população", explicou. 

    Ações públicas 

      Segundo o IBGE, o Amazonas está na segunda pior posição do país em relação à fome. Em Manaus, o auxílio manauara no valor de R$200 reais é uma das medidas que tenta amenizar a triste realidade de grande parte da população. Estima-se que 40 mil famílias receberam ao menos uma parcela da ajuda, podendo chegar até seis vezes. Pela parte do estado, o cartão auxílio Amazonas contemplou mais de 100 mil famílias, também com valor de 200 reais, em 3 parcelas. Na Assembleia Legislativa do Amazonas, a deputada estadual Joana Darc (PL) ressalta as iniciativas para tentar amenizar o momento dramático.  

     
    A deputada Joana Darc (PL) possui Projeto de Lei que visa o combate à fome de estudantes em período de férias.
    A deputada Joana Darc (PL) possui Projeto de Lei que visa o combate à fome de estudantes em período de férias. | Foto: Divulgação

    "Durante a pandemia, as emendas parlamentares da Aleam deram prioridade ao combate à Covid-19, os impactos sociais causados pelo vírus e ações voltadas à saúde. A emenda coletiva para aquisição de cestas básicas é um exemplo disto. Ações para o fomento e desenvolvimento de municípios também estão sendo feitas. É extremamente importante que haja políticas públicas para este público que se encontra em situação de vulnerabilidade social, resguardando a estes cidadãos a garantia à alimentação", apontou. 

    Além das propostas, a deputada é autora de Projeto de Lei que ainda tramita na Aleam e dispõe sobre a criação de política estadual de combate à fome no período das férias escolares das crianças e adolescentes matriculados na rede pública estadual de ensino.

    Outros parlamentares também demonstram-se preocupados com o atual cenário da insegurança alimentar no estado. Na cheia, segundo dados da Revista Pesquisa, 31% das famílias tinham como renda principal o Seguro Defeso (serviço do governo para pescadores artesanais); 15% a aposentadoria; 14%, a pesca; e 12% o Bolsa Família. O deputado Serafim Corrêa (PSB) reforça que as medidas ajudam, mas são necessárias outras soluções atuando simultaneamente. 

     
    O deputado Serafim Corrêa (PSB) defende que os auxílios amenizaram a situação da insegurança alimentar.
    O deputado Serafim Corrêa (PSB) defende que os auxílios amenizaram a situação da insegurança alimentar. | Foto: Divulgação

    "Existe uma preocupação de todos os deputados com relação à fome que está nos lares amazonenses. Nesse sentido, a secretaria de ação social, onde trabalha a deputada Alessandra Campelo, tem adotado medidas. O que poderia agilizar a solução desta questão seria maior geração de emprego e renda, para que a população pudesse prover o seu próprio sustento. Os auxílios, com certeza, amenizaram a necessidade das pessoas", finalizou.  

    A população desempregada também reflete na insegurança alimentar.  O IBGE registra que, no primeiro trimestre deste ano, o Amazonas ficou na sexta colocação entre os estados brasileiros com maior quantidade de desempregados, com 17,5% da população nesta categoria. O deputado estadual Dermilson Chagas (sem partido) ressalta este fator. 

    "Há uma necessidade grande em alimentação no Amazonas, principalmente porque temos muitos desempregados devido à pandemia. A federação tem feito sua parte com os auxílios aos municípios e estados. É necessário resolver os problemas de uma forma menos paliativa, e a política de assistencialismo deve ser fortificada. A demanda por ajuda na alimentação é muito grande e precisamos aumentar a oferta", afirmou. 

    Falta de políticas públicas e suas consequências

    Apesar da movimentação política por propostas, de acordo como a base de dados da Câmara Municipal de Manaus e da Aleam, não foi encontrada nenhuma norma jurídica - lei aprovada - que disponha sobre insegurança alimentar em 2021, segundo a apuração realizada pela reportagem. No âmbito do Congresso Nacional, para o oposicionista deputado federal José Ricardo (PT), são necessárias mais políticas públicas assistencialistas para reverter o quadro no Amazonas. 

     

    O deputado Zé Ricardo pediu mais políticas públicas com intuito de geração de emprego e fomento à agricultura familiar.
    O deputado Zé Ricardo pediu mais políticas públicas com intuito de geração de emprego e fomento à agricultura familiar. | Foto: Divulgação

    "Tivemos uma situação ainda mais grave com a cheia. Precisaríamos, no mínimo, que 1 milhão e meio de pessoas recebessem auxílio novamente por conta das enchentes. O comércio também sofreu demais com a cheia, então precisamos de políticas públicas para recuperar este setor. Eu acredito que, no Brasil, é preciso uma política de segurança alimentar e assistência social forte. Outro fator que ajudaria bastante é a intensificação de compras de produtores da agricultura familiar destinada à merenda escolar, cestas básicas e alimentação para os mais pobres", sugeriu.

    Em decorrência deste cenário, a saúde dos amazonenses também fica vulnerável. Patologias como anemia, raquitismo, distúrbios no crescimento e outras doenças por falta de vitaminas tornam-se mais comuns. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo todo, cerca de 45 milhões de crianças estavam debilitadas ou muito magras para sua altura em 2020. A nutricionista Beatriz Soares explica os perigos da insegurança alimentar.

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    A pessoa não terá reflexos negativos pela substituição de carne vermelha por carnes mais baratas. Agora, quando se trata de proteína animal substituída por vegetal, já existem consequências ruins. É verdade que é quase impossível montar uma dieta realmente saudável com valores abaixo de um salário mínimo, ainda mais para uma família toda. A fome traz efeitos desastrosos, principalmente para as crianças, como no caso do déficit de crescimento e peso. Essa criança não terá um consumo adequado de macronutrientes, e muito menos de micros que são as vitaminas fundamentais para a saúde "

    , explicou

     

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