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    Conservadorismo


    Após eleição de Bolsonaro, militares ganham força política no Brasil

    Mesmo com muitas polêmicas envolvendo o atual presidente e parlamentares militares, a categoria ainda é vista com credibilidade pelo eleitorado

    O expressivo aumento de militares na política partidária nos últimos anos demonstra uma consolidação da categoria
    O expressivo aumento de militares na política partidária nos últimos anos demonstra uma consolidação da categoria | Foto: Marcos Corrêa/PR

    Manaus - A última eleição geral, em 2018, foi marcada pela chegada de mais de 70 militares ao poder, entre integrantes das Forças Armadas, policiais militares, bombeiros militares e militares reformados. A sede por mudança e, principalmente, o antipetismo foram os fatores que influenciaram para que o eleitorado apostasse em candidatos integrantes destes grupos para cargos políticos em todo o Brasil, fato que se repetiu nas eleições municipais deste ano.

    Mesmo após muitas polêmicas, como a defesa do Ato Inconstitucional 5 (AI-5) e a reforma da previdência dos militares, parte do eleitorado defende a eleição de representantes da categoria. Suas atuações no Congresso são voltadas desde a pautas sociais, porém conservadoras, a econômicas, e nem sempre são convergentes, como já visto nos últimos anos.

    A autônoma Marcilse Ramos, 49, afirmou que a eleição de militares é um direito garantido, assim como de qualquer outra categoria. Ela explicou que é necessário que haja mudanças nos grupos políticos, especialmente em cargos federais.

    "É bom sim, tem que mudar pelo menos lá [Congresso], já que aqui é tão difícil. Eles também têm o direito de conquistar esse espaço, então é importante que estejam lá representando a classe. Eles têm uma credibilidade maior, trazem essa segurança", afirmou.

    Pelo menos 72 militares foram eleitos para cargos nas Câmaras estaduais, federais e para o Senado em 2018, de acordo com informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O Partido Social Liberal (PSL), que na época era o partido do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), militar reformado, foi o que mais elegeu representantes, com 39 candidatos vencedores. O número de eleitos, no entanto, pode ser ainda maior considerando que alguns concorrentes às vagas podem ter adotado nas urnas um nome em que o cargo militar não esteja explícito ou ainda não ter declarado uma função militar como profissão.

    No Amazonas, dois entre os 24 deputados estaduais se elegeram com alguma ligação militar: o Delegado Péricles (PSL) e Cabo Maciel (PL), em 2018. No mesmo pleito, foi eleito o deputado federal Alberto Neto (Republicanos), ex-capitão da Polícia Militar. O parlamentar acredita que como em todas as categorias, os policiais militares merecem representatividade no meio político e que a pluralidade favorece as discussões dos mais variados temas, como a segurança, tudo isso em benefício do povo e da democracia. 

    "Eu sou um exemplo disso. Após 10 anos como oficial da Polícia Militar do Amazonas, aceitei o desafio de ser deputado federal, representar os profissionais da segurança e lutar por interesses da população amazonense. Vemos com mais frequência profissionais de segurança abrindo mão de carreiras sólidas para se lançarem a cargos eletivos, tendo como bandeira a defesa dos direitos da população: a segurança, a saúde, a educação", destacou. 

    Conquista de poder

    Apesar da presença expressiva, o cientista político Carlos Santiago ressaltou que um novo golpe militar, que seria os militares assumirem totalmente o poder do país, é muito improvável no cenário político-social que o Brasil se encontra. "O Regime Militar causou enormes prejuízos culturais, democráticos e econômicos ao país. É um passado que fez muito mal ao Brasil e que, na atual conjuntura mundial, não tem espaço para acontecer".

    O especialista explicou ainda que não todos, mas muitos militares buscam espaço na política para conquistar benefícios pessoais, que independem de ideologias políticas, apesar do discurso eleitoreiro de promoção de mudanças. Santiago ressaltou ainda que a busca pelo poder sempre existiu entre os integrantes da categoria, o que intensificou a presença destes nos parlamentos nos últimos anos.

    "Eles ganham mais espaço no poder Executivo e buscam ampliar suas presenças nas casas legislativas. Mesmo com militares com mais poder dentro do Legislativo e do Executivo, a sociedade brasileira não suportaria um novo golpe militar. É um governo que visa somente privilegiar os privilegiados, por exemplo, os militares, os grupos poderosos do funcionalismo público e o sistema financeiro. Militares estão onde sempre estiveram: no poder. Independentemente de ideologia", ressaltou o especialista. 

    Eleições municipais 2021

    Já nas eleições municipais deste ano, foram eleitos 809 membros de alguma das forças de segurança, para o cargo de vereador, e 50 para o cargo de prefeito, em todo o Brasil. Em 2016, foram 793 vereadores eleitos e 34 prefeitos, segundo informações do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O crescimento representa a consolidação da categoria no cenário político, mesmo diante das polêmicas envolvendo o atual presidente, a figura de liderança para a grande maioria dos parlamentares militares. 

    No Amazonas só 3,4% dos policiais candidatos ao cargo de vereador conseguiram se eleger. Em Manaus, foram 71 candidatos, entre policiais civis, militares, delegados ou com carreira militar, se candidataram a vereador, onde apenas o capitão da Polícia Militar, Carpê Andrade (Republicanos) conseguiu se eleger e representará a categoria na Câmara Municipal de Manaus (CMM) pelos próximos quatro anos. O vereador eleito pretende buscar melhorias para a categoria durante seu mandato.

    "É de onde eu vim, portanto, lutarei em prol da categoria para termos o respeito, reconhecimento e direitos cumpridos. Tudo engloba a política. Logo, é necessário que haja um representante, um porta-voz, alguém que leve ao parlamento as reivindicações da categoria e eu pretendo ser esse representante", defendeu.

    Apoio Presidencial

    Com a liderança do presidente Bolsonaro, muitos aliados militares conseguiram destaque pelo discurso em defesa da pátria. Alberto Neto contou que esse apoio mútuo é importante para o fortalecimento da categoria no âmbito nacional.

    "O presidente Bolsonaro é muito importante para nossa classe, seu apoio demonstra que os profissionais da segurança pública ocupam um lugar importante na sociedade brasileira e que merecem atenção, apoio e investimentos", defendeu. 

    Carpê Andrade também afirmou que o apoio de Bolsonaro, principalmente por ocupar o maior cargo político do país, é imprescindível à classe. "Ele é um ex-militar. Mais do que todos, ele sabe dos problemas e limitações que a categoria enfrenta. Sendo assim, é imprescindível ter o apoio do nosso presidente, que vem de origens militares"

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