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    Racismo


    Racismo, a pandemia à espera de vacina

    O Brasil é um país de desigualdades. O preconceito racial é uma pandemia disseminada no mundo todo. Contra essa intolerância, segregação, discriminação, o ódio e a dificuldade de conviver com a diversidade, o ativismo virtual cresce nas redes.

    Escrito por Rosangela Lira no dia 21 de janeiro de 2021 - 17:27

     

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    A imagem de Mônica Calazans, enfermeira de São Paulo, primeira brasileira vacinada contra a Covid-19 no país emocionou os corações de todos que veem no imunizante a esperança de dias melhores. Em algumas manchetes, lia-se “Enfermeira negra, a primeira vacinada”. Mas, nominar o primeiro negro em qualquer atividade, importa? Ou são reflexos de uma sociedade que, embora negue o racismo, enfatiza-o nas expressões naturalizadas?

    Ingrid Silva, da companhia Dance Theatre of Harlem, primeira bailarina brasileira negra a palestrar em Harvard. Caroline Dartora (PT), primeira negra eleita para a Câmara Municipal da capital paranaense. Barack Obama, primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos. Willy T. Ribbs, primeiro piloto negro a testar na Fórmula 1... O jornalista Fernando Taroco, em matéria no Correio Braziliense, afirmou que a mídia dá destaque à cor da pele em detrimento das habilidades da pessoa. “Ser o primeiro ‘negro ou negra’ realmente importa destacar?”.

    “O racismo sutil por trás das palavras”, material produzido pela Secretaria de Justiça e Cidadania, convida-nos a refletir sobre o preconceito existente apresentado por meio da linguagem e que reafirma a posição subalterna dos negros, enfatizando as expressões racistas e impregnadas nas estruturas das relações étnico-raciais.

    “Mercado negro”, “lista negra”, “humor negro”, “ovelha negra” são expressões usadas de forma pejorativa e servem também para minimizar a imagem social dos negros, de forma que reproduz e reforça no inconsciente coletivo da sociedade brasileira a relação preconceituosa entre negritude e negatividade.  “Feito nas coxas”, por exemplo, tem origem no fato de que, antigamente, as telhas eram moldadas nas coxas dos escravos e, como os corpos eram diferentes, não ficavam no mesmo formato, e assim estariam malfeitas. Outro exemplo citado é o “Criado mudo”, o escravizado que ficava em pé ao lado da cama a noite inteira em silêncio.

    Edison Cavani, jogador do Manchester United e da seleção uruguaia foi punido pela Federação Inglesa, com três jogos de suspensão e multa de cem mil libras, por utilizar a expressão “negrito” (acompanhado de obrigado) para agradecer ao elogio de um fã. No entanto, o fato causou revolta e a hashtag #GraciasNegrito ganhou as redes sociais. Entidades se manifestaram argumentando que era comum no país termos como “negrito” e “gordito”, usados de forma carinhosa, e classificaram a sanção como ignorância sobre a língua. Em oposição a esse pensamento, para os afro-uruguaios, embora não tenham identificado injúria, o termo “negrito” mostra como o racismo está enraizado na cultura e na língua do país. “Algo ser costume não significa ser correto”, assim afirmaram alguns.

    O Brasil é um país de desigualdades. O preconceito e o racismo parecem fazer parte do DNA das pessoas. Lecy Brandão revelou ao Blog do Acervo uma situação inusitada que ocorreu em 1980. Ela foi a um prédio da Tijuca deixar a mãe que ficou de visitar uma amiga e resolveu acompanhá-la até o elevador, quando foi surpreendida pelo porteiro que lhes indicou a entrada de serviço, ao que Lecy indagou o porquê, quando recebeu a seguinte resposta: Vocês são duas negras, não sei se são empregadas”. É claro que a indignação tomou conta da cantora que expôs a situação à imprensa.

    No Brasil, diferentemente do apartheid sul-africano ou estadunidense, há um “racismo cordial”, no qual brancos e negros convivem “harmoniosamente”, desde que o negro não tente ocupar o lugar do branco. Seria o tal ‘homem cordial’, citado por Sergio Buarque de Holanda, no livro Raízes do Brasil, associado à maneira passional com que o brasileiro age? Como afirmou Martin Luther King, ninguém deseja ceder direitos aos injustiçados, sem que esses lutem por eles.

    Segundo Leandro Karnal, não gostamos de guetos físicos, mas instituímos nossos guetos sociais e econômicos. Não é necessário no Brasil ter uma legislação de apartheid porque aqui o apartheid já funciona naturalmente.

    Na verdade, preconceito racial é uma pandemia disseminada no mundo todo. Contra essa intolerância, segregação, discriminação, o ódio e a dificuldade de conviver com a diversidade, o ativismo virtual cresce nas redes. Black Lives Matter” (“Vidas Negras Importam”) virou o mantra dessa geração.

    Episódios como a morte de João Pedro, no Brasil, e de George Floyd, nos Estados Unidos, por estrangulamento praticado por policiais; também o assassinato de João Alberto Silveira Freitas, negro de 40 anos que foi levado por dois seguranças brancos do Carrefour e espancado até morrer desencadearam reações contra esses crimes de ódio. E, no início deste ano, na invasão ao Capitólio, muitos criticaram o fato de que protestos pacíficos de representantes afro-americanos foram reprimidos com violência policial, o que não ocorreu nessa invasão que era de “homens brancos”. 

    A primeira brasileira vacinada no país, Monica Calazans, enfermeira, preta, mora em uma cidade onde a mortalidade por Covid-19 é 60% maior entre negros, assim afirmou Thiago Amparo em artigo para a Folha. Seria resultado do racismo estrutural?

    Para Kamala Harris, eleita vice-presidente dos Estados Unidos, o vírus não tem olhos e ainda assim sabe exatamente como nós vemos uns aos outros, argumentando sobre o fato de negros, latinos e indígenas terem sido atingidos desproporcionalmente mais do que os brancos pela Covid-19. “É o efeito do racismo estrutural, das desigualdades na educação e tecnologia, no acesso à saúde e moradia, segurança no trabalho e transporte, no excesso de uso da força pela polícia. Não há vacina para o racismo”, concluiu.

    Rosângela Lira

    Educadora, Bacharel em Direito, Mestranda em Segurança Pública e Acadêmica de Jornalismo.

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